ARTIGOS VARIADOS Jornalistas do PCB na ditadura militar brasileira (1964-1985): resistência e adaptação Mônica Mourão* Introdução Empresas de direita, funcionários de esquerda. Se a fórmula pode parecer simples e até comum, ao se pensar em jornalistas, que trabalham com produção simbólica, e empresas de comunicação, a situação se complexifca. Mais ainda quando se trata de jornalistas que faziam parte de um partido comunista, posto na clandestinidade 1 com o golpe de 1964, apoiado pela maioria das empresas de comunicação nas quais eles trabalhavam. Além disso, há nuances ideológicas tanto no grupo das empresas quanto no dos jornalistas, o que estabelece entre ambos brechas de negociação. Em entrevistas e livros de memórias de jornalistas, são comuns as refe- rências à presença de jornalistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em redações da imprensa comercial durante a ditadura (1964-1985) e até algu- mas breves menções descontextualizadas sobre sua relação com os proprietá- rios desses jornais. 2 Em geral, ao se tratar de história da imprensa brasileira, * Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2009. Doutoranda em Comunicação pela mesma instituição. E-mail: monicamourao@gmail.com. 1 O PCB estava na ilegalidade antes do golpe, porém, nos últimos anos, não sofria perseguições e tinha inclusive proximidade com o governo do presidente João Goulart. 2 Muitos exemplos podem ser encontrados nas entrevistas publicadas no livro Eles mudaram a imprensa: depoimentos ao CPDOC (Abreu; Lattman-Weltman; Rocha, 2003). Relativamente às décadas anterio- res à ditadura, há também trechos interessantes sobre a presença de jornalistas do PCB na imprensa comercial nos livros de memórias de Samuel Wainer – Minha razão de viver: memórias de um repórter (1988) – e de Edmar Morel – Histórias de um repórter (1999).