Audiovisuais contemporâneos: desafos de pesquisa e metodologia 99 Qualidade sob demanda: streaming, mundialização e diversidade Felipe Muanis A edição número 761, de dezembro de 2019, da prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma elegeu os melhores filmes da década de 2010 com uma surpresa que, até hoje, não foi bem digerida por muitos de seus leitores. À frente de nomes como Jean-Luc Godard, Manoel de Oliveira e Lars von Trier, David Lynch abiscoitou o primeiro lugar – até aí nada surpreendente, uma vez que o diretor é um legítimo representante contemporâneo da tradição do cinema moderno. No entanto, o detalhe que realmente causou espanto foi a premiação de Lynch não por um filme, mas por Twin Peaks: the return (2017) – a temporã terceira temporada da série de televisão produzida por ele e Mark Frost para o canal estadunidense Showtime, 25 anos depois da segunda tem- porada, exibida em 1991 pelo canal ABC. A tradicional revista que pariu os jovens turcos e a Nouvelle Vague na virada da década de 1950 para 1960 pare- ceu, ao menos momentaneamente, engrossar o coro – muitas vezes classifi- cado como oportunista e marqueteiro – de alguns cineastas, como o inglês Peter Greenaway e o próprio David Lynch, de que o lugar da qualidade hoje é a televisão e não necessariamente o cinema. A discussão, que parece algo ino- vador, não tem nada de novo, tirando o fato de uma revista canônica da alta cultura cinematográfica eleger um programa televisivo como melhor filme: Lynch, herdeiro da tradição de um cinema de vanguarda, leva para a televisão uma imagem cinemática e a linguagem do cinema moderno. Ao levar marcas caras ao cinema mais incensado pela crítica para uma série de televisão, assim como a Cahiers du Cinéma, ele puxa para o cinema o caráter de qualidade, independentemente da mídia utilizada. Essa relação de dependência da qualidade na televisão ser tributária do melhor que o cinema pode oferecer não é exatamente nova. A televisão,