Theologica Lusitana O SALMO 126 E O TERCEIRO ÊXODO No séc. XVI os judeus da Penínsuia viveram momentos de grande agitação e expectativa, as quais tinham raízes no magistério de Isaac Abravanel e na actividade de José Nassi, ambos figuras notáveis da comunidade israelita em Portugal. O primeiro gozou de grande influência no ânimo de D. Afonso V e nalguns nobres da Corte, nomeadamente o duque de Bragança; mas veio a cair em desgraça no tempo de D. João II, suspeito de cumplicidade na conjura contra o rei Fugindo ao braço justiceiro do monarca, exilou-se para Espanha e mais tarde para Itália, tendo-se fixado em Veneza, onde faleceu em 1508. Antes, porém, vivera 8 anos em Nápoles, os mais fecundos do seu labor de exegeta de invulgares recursos 2 . A recordação dum passado de esplendor e fausto, em contraste com as privações de agora, traduziam-se num despeito cheio de rancor contra os soberanos de Portugal e Espanha, e geralmente contra a Cristandade, e num desejo feroz de vingança 3 . Dominado por este sentimento, reinterpretou os grandes Profetas da sua raça, em especial Daniel, onde não lhe foi difícil descobrir profetizada a iminência do reino messiânico. O «Quinto Império» 1 Pensa J. Lúcio DE AZEVEDO que foram essas amizades que lançaram a juúpeçlo de D. Joio sobre Abravanel (cfr. História dos Cristãos novos Portugueses, Lisboa (1921), pg. 9) Ele seria um dos que afrontavam «com seu luxo e riquezas a penúria geral», razão por que era odiado pelo povo, como o declaram estes versos do Cancioneiro: Estes são os do cuidar sem o poderes negar os mores oito senhores o quinto Abravanel e cuidam que é perdimento quando cuidam que por cento trinta é pouco ganhar. (Cancioneiro Geral, nova edição, Coimbra 1910, I, 62-63). 1 Cfr vg J E. I, 126-128; D. G. MAESO, Manual de Historia de la Leteratura Hebrea, Madrid 1960, 582-585. Informações mais detalhadas na obra capital de B. NETANYAHU Don Isaac Abravanel, Filadélfia 1960, 2." ed. 3 Segundo Netanyahu, «revenge is the theme streversed most often in Abravanel'« messianic wrintings». A divisa do rabino era: «A vingança i própria das grandes almas» (o. c. 227). I (1971) DIDASKALIA 355-340