Maria Carmen Villarino Pardo et al. Promoción cultural y tradución: ferias internacionales del libro e invitados de honor. Berna, Peter Lang, 2021. 290 p. Por Marcello Giovanni Pocai Stella https://orcid.org/0000-0003-2420-0392 Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. O retorno do recalcado: Estado e universo literário Embora seja uma especialidade recente (Sa- piro, 2014), a sociologia da literatura, princi- palmente a de matriz bourdieusiana, tende a concordar com um pressuposto implícito de que, ao longo do século xx, o capital econômi- co, ou o polo de grande produção (comercial), defnido nos escritos de Bourdieu (1996, 1999) principalmente pela sua adesão às lógicas de ganhos de curto prazo, fdelidade aos índices de venda e à maximização dos lucros, estaria se sobrepondo às lógicas internas da produção literária e submetendo-a a critérios alheios ao primado da estética. Esse processo em um primeiro momento, porém, teria na verdade sido benéfco para os escritores, pois quando surgiu e se fortaleceu o componente mercantil do mundo editorial, os autores puderam se ver livres de relações de dependência estreitas com mecenas, autorida- des do Estado e/ou religiosas e editores (Sapiro, 2019). Assim, em um primeiro momento, o mercado editorial fortalecido e a possibilidade de viver da própria pena, graças ao consumo por um público leitor ampliado, representam um ganho de autonomia da atividade literária em relação a antigos fatores de dependência, notadamente, a política e a religião. Todavia, não demoraria para que, de provedor de autonomia, o mercado editorial se tornasse um elemento de heteronomia e constrição (Bourdieu, 1999; Tompson, 2013). Durante algum tempo a produção em sociologia da literatura, notadamente aquela preocupada em buscar os sentidos de uma obra não só em seus elementos internos e intrínsecos, mas levando em consideração, os mediadores que imprimem os livros, preparam, criticam e os fazem circular, bem como as diversas instituições que participam desse processo seja na produção, circulação, tradução, recepção e consagração etc., levou a afrmação do domínio das lógicas econômicas como um dado inquestionável ou irrefetido, característico da contemporaneidade. Ocorre que recentemente, estudos coletivos e individuais de pesquisadores especializados na subárea e de outras disciplinas têm chamado a atenção para os diversos matizes que o domínio econômico comporta e trazendo de volta para a