A REINVENÇÃO DA VIDA FACE À MORTE EM A MULHER DOS PÉS DESCALÇOS Ana Júlia VALEZI Orientadora: Profa. Dra. Mariana Peceguini Ruggieri RESUMO: O artigo busca, a partir de cenas de convivência entre mulheres descritas no romance A mulher dos pés descalços, analisar e vislumbrar possibilidades de ruptura, recriação e resistência às atrocidades e violências resultantes do processo de colonização ocorrido em Ruanda, culminando no genocídio de 1994. Na posição de testemunha-vítima (AZARIAN, 2015), Mukasonga relata e tenta dar forma a essa experiência catastrófica por meio de uma forma literária (SELIGMANN-SILVA, 2003), focalizando seus relatos a partir da figura materna. Palavras-chave: literatura, Scholastique Mukasonga, testemunho, genocídio, gênero. INTRODUÇÃO Os processos colonizadores são predominantemente marcados por violência e opressão: a imposição de um regime administrativo, o controle dos grupos sociais, a fiscalização econômica, política e social são algumas das práticas relacionadas a esses fenômenos e que refletem essas características. Em certa medida, os movimentos de descolonização também remetem a cenas violentas, uma vez que disputas pelo poder implicam uma movimentação dos diferentes grupos sociais e seus interesses, muitas vezes contraditórios e inconciliáveis. A segunda metade do século XX foi marcada por lutas de independência em África e, portanto, por conflitos e guerras. Em Ruanda, esse período foi caracterizado por um fortalecimento de um grupo étnico, os hutus, anteriormente reprimidos pelas forças coloniais, levando a um dos eventos mais trágicos: o genocídio de 1994, que contabilizou centenas de milhares de tutsis mortos. Esse conflito tem origem, portanto, nas disputas étnicas fomentadas pelo aparelho colonial belga. Situado no período do massacre, o romance autobiográfico A mulher dos pés descalços é um retorno às vivências da infância e adolescência da autora Scholastique Mukasonga. Nesse livro, a figura feminina, representada pela imagem e pelas funções maternas, adquire centralidade. As memórias da narradora são perpassadas pelas experiências dessa população deslocada e desmembrada, mas empenhada em sobreviver e fazer sobreviver suas histórias, culturas, tradições. Morte e vida, destruição e reconstrução operam constantemente nessas cenas, centradas primordialmente nos momentos de convivência entre as mulheres daquele vilarejo. Trata-se, pois, de um exercício constante de reinvenção das práticas organizadas em torno da confraternização e sociabilidade sobretudo femininas. Nesse sentido, o gênero mostra-se como uma categoria analítica profícua para compreender os acontecimentos descritos, uma vez que se relaciona também a uma das estratégias implementada para dizimar os tutsis. Usado como instrumento de violação das mulheres, o estupro foi também uma estratégia para interromper a reprodução e, portanto, a continuidade desse grupo, dado que era o mecanismo usado para a transmissão do vírus da HIV, outra estratégia de conter sua perpetuação. Tendo em vista os cenários descritos no romance e os acontecimentos históricos que caracterizaram esse período, pretendo nesse artigo lançar luz sobre algumas cenas enquanto possibilidades de ruptura, recriação e resistência às atrocidades e violências que perpassam esses sujeitos, focalizando primordialmente as figuras femininas, dado que é a partir desse enfoque que o romance se constrói. Para tanto, será traçado um breve histórico do período colonial, propulsor das rivalidades étnicas que culminaram nesse evento trágico e violento, de modo a compreender as situações de violências descritas no romance em questão. Para isso, mobilizou algumas das proposições de Munanga (2004) para quem a etnicidade configura-se como uma categoria imposta pela colonização e que orientou os conflitos étnicos aqui mencionados. Além disso, busco compreender os relatos a partir da concepção de gênero, uma vez que os efeitos dessa conjuntura são resultados de uma política de ocidentalização e, nesse sentido, as violências respondem a paradigmas eurocêntricos e coloniais. Destaco a reflexão desenvolvida por Oyèrónké Oyěwùmí (2004) a respeito dessa chave de leitura e interpretação dos processos sociais, entendendo que a aplicação desses conceitos em contextos não-ocidentalizados pode parecer um trabalho improdutivo e sobretudo insensível às epistemologias não ocidentais. No entanto, a mobilização desse conceito num cenário modificado por práticas coloniais parece produtiva, sem, no entanto, singularizá-la como única leitura possível. HISTÓRICO DA COLONIZAÇÃO Para compreender a manutenção de conflitos e cenários violentos em alguns Estados de África, Munanga (2004) remonta os períodos de ocupação pelos diferentes grupos que compunham o território brought to you by CORE View metadata, citation and similar papers at core.ac.uk provided by Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) Unicamp (Universidade Estadual de Campinas...