Música na carne: o advento da experiência musical incorporada Marcos Nogueira mvinicionogueira@gmail.com Escola de Música – Universidade Federal do Rio de Janeiro Resumo A Psicologia Cognitiva e a Neurociência contemporânea vêm comprovando, nas últi- mas décadas, que nossas inferências intelectuais são produzidas pelo mesmo apare- lho cognitivo, pela mesma arquitetura neuronal que usamos em nossas ações perceptivas e corporais. Ou seja, neste contexto não haveria possibilidade de exis- tência de uma mente separada e independente das capacidades corporais. A razão usaria essas mesmas capacidades para se constituir. Assim sendo, nosso sentido do que é real tem origem nas ações do nosso corpo enquanto unidade formada pelo aparato sensório-motor e o cérebro: nossos sentidos são incorporados . Neste artigo proponho reconhecer que a experiência do objeto musical envolve três níveis concorrentes: (a) a percepção dos traços distintivos dos objetos sonoros e o efeito de “animação” que a sua variabilidade produz no nosso sistema conceitual; (b) a produção de formas e sintaxes estilísticas resultantes da ação do imaginário e da habituação de recorrências; e (c) os efeitos emocionais gerados na troca comuni- cativa entre um conteúdo musical e um conteúdo mental. A experiência de movi- mento em música e os mecanismos cognitivos que empregamos para conceitualizá-lo determinam os demais níveis de experiência, sintático e emocional. Saliento que na experiência do movimento musical buscamos referências reais e essa experiência é um reflexo da nossa experiência de vida corporal. O artigo discute, pois, os resultados de um dos vieses da pesquisa por mim iniciada em 2001, dedicada ao campo que denominei “semântica do entendimento musical”, e que tem como objetivo central o estudo do processo de produção de sentido no ato da escuta dos objetos musicais. Está em discussão, em especial, a proeminência do papel das descrições conceituais (proposições) na revelação da condição incorporada que assume a mente humana na constituição do sentido musical e sua contribuição para o entendimento das deci- sões tanto interpretativas (seja de ouvintes ou de executantes) quanto composicio- nais. Palavras-chave sentido musical – metáfora conceitual – objeto musical Não há música sem a presença de um ser humano capaz de converter sons em música. Palavras podem descrever os objetos musicais e a sua experiência, mas somente à me- dida que puderem ter o sentido que a música tem para quem a experimenta. Os ter- mos “música” e “objeto musical” referem-se a aspectos específcos do mundo humano. Nesses termos, como lembra Tomas Clifon no início de seu Music as heard, “música é a atualização da possibilidade de qualquer som que seja de apresentar a algum ser humano um sentido que ele experimenta com o seu corpo — isto é, com sua mente, 16