Tradução do ARTIGO: SOARES, Fernanda Codevilla. 2020. Analyzing historical artefacts: progress and challenges. In: SYMONDS, J; LAWRENCE, S.; FUNARI, P.; ZARANKIN, A. e ORSER, C. The Routledge Handbook of Global Historical Archaeology. London & New York: Routledge, p.443-457. Análise de artefatos históricos: avanços e desafios Fernanda Codevilla Soares 1. Introdução Cacos de cerâmica e de vidro, pedaços retorcidos de metal, fragmentos de ossos porosos, madeiras quebradas sem forma, retalhos de tecidos ou de couros monocromáticos e vários outros itens são dispostos nas mesas de laboratório para serem analisados. Instigados, tentamos dar sentido a peças que, à primeira vista, não significam mais que um amontoado de lixo. Nesse capítulo, irei abordar, justamente, a análise de artefatos. Quais são os procedimentos que costumamos seguir para que, juntos aos vestígios, possamos contar histórias sobre coisas e pessoas? Como ocorre a metamorfose de fragmentos de lixo em narrativas que registram a biografia de peças e grupos sociais? Como contamos histórias sobre/com/a partir de garrafas de bebida, frascos de remédio, potes de cerâmica, tigelas de louça, restos ósseos alimentares, munições de metal, sapatos de couro, etc? Tendo como pano de fundo essas perguntas, a finalidade é discutir como a análise da materialidade vem sendo desenvolvida pela arqueologia do Capitalismo 1 ; quais são seus principais alinhamentos e transformações ao longo do tempo. Destaco, contudo, que não se trata de um “guia” sobre análise de louças, cerâmicas, vidros, ossos, metais, madeiras, tecidos etc - os quais entendo como fundamentais, mas amplamente publicados 2 e sim uma revisão bibliográfica que situa teoricamente as metodologias de análise, apresentando avanços e desafios. 1 Optei por utilizar o termo Arqueologia do Capitalismo, conforme proposto por Johnson (1996), a fim de fugir das tradicionais dicotomias que separam a arqueologia histórica da pré-histórica. Nessa perspectiva, a arqueologia não se caracteriza, exclusivamente, pelo estudo de um período (pós 1500, por exemplo) e nem de uma metodologia (confronto entre fontes históricas e fontes materiais, por exemplo), mas pela análise de um processo histórico e seus efeitos no cotidiano dos grupos sociais em diferentes partes do mundo. Segundo o autor, a Arqueologia do Capitalismo estuda o processo de formação do sistema capitalista, entendendo-o como fenômeno econômico e cultural. 2 No subtópico 3 “Analisando a análise: tipologias e classificações em arqueologia do capitalismo” serão apresentados alguns manuais para análise de materiais.