19 n° 20 - mai 2004 LATITUDES auctoritas reconhecida. Isto aumenta a dificuldade de reconstrução do ambiente pré-Certeza, ainda acres- cida por outras razões: escassa produção escrita dos intervenien- tes, quase imediata dispersão deles não só pelas ilhas mas pelo funcio- nalismo colonial e nas quatro parti- das do mundo e, sobretudo, situação terrivelmente precária em que (sobre)vive nessa altura o jorna- lismo cabo-verdeano, de que pode dar a medida o facto de o único jornal das ilhas, Notícias de Cabo Verde, ter estado praticamente inter- rompido entre Outubro de 1944 e de 1945 - nesse intervalo apenas foi publicado o número 229 (6.3.1945) - e de o anterior órgão para a expres- são da juventude ter desaparecido em 1936, um ano antes de que se fechasse a mais tarde baptizada como primeira fase da Claridade. As condições para reconstruir o ambiente de fervilhar cultural na forma ou manuscritas, jornalísticas ou outras -, de tal modo que a sua reconstrução habitualmente só pode ser enfrentada recorrendo às pega- das que deixa a concretização do ideado. Assim sendo, as realizações grupais em forma de publicação, perduráveis, as breves notas na imprensa contemporânea, a corres- pondência entre os seus artífices ou, então, o depoimento, já afastado no tempo, dos participantes -quer acti- vos, quer passivos- nesse acontecer são os instrumentos para recuperar essa movimentação. Entrados no século XXI, conti- nuam sem se encontrar ou sem esta- rem disponíveis excessivas notícias sobre o momento pré- Claridade , apesar de a primeira metade da década de 30 ter sido de intensa actividade jornalística em Cabo Verde; apesar de as figuras que iriam produzir Claridade estarem já integradas no escol intelectual e social do meio, como agentes (re)- conhecidos e presti- giados mesmo antes de publicarem a revista; apesar de as obras e as biografias da “tríade claridosa” terem sido objecto de abundante trata- mento até aos nossos dias. Nos anos 40 a agitação do clima intelectual e literário das ilhas, cujo epi- centro continuava em São Vicente, parece proceder do entorno do liceu Gil Eanes do Mindelo - o único existente - e ter como principais activadores da inicia- tiva alunos finalistas, isto é, jovens sem N ão há resenha onde se faça o percurso pela emergên- cia e construção do sistema literário cabo-verdeano que não contenha referência, mesmo que breve, à Certeza, uma publicação surgida em 1944 que tem servido para afirmar a existência de uma geração de produtores nascidos nos anos vinte e para baptizá-la. Essa subintitulada Fôlha da Academia foi, de facto, o espaço inicial de afir- mação de Arnaldo França - tanto do poeta como do ensaísta e, ainda, do organizador -, hoje reconhecido pelo governo do arquipélago como um dos embaixadores da cultura de Cabo Verde 1 ; também aí Orlanda Amarílis, a produtora ilhoa que mais atenção tem recebido do espaço académico, assinou o seu primeiro texto tornado público; como ela, há muito tempo na diáspora lisboeta, Nuno de Miranda é outro dos inte- lectuais cabo-verdeanos revelados no início dos anos quarenta. Não se trata, contudo, nem de figuras nem de obras cujo vulto e projecção exte- rior estejam ao nível dos clássicos claridosos, Jorge Barbosa, Manuel e Baltasar Lopes. Uma “instituição cultural” a reconstruir Nalguma ocasião, Certeza aparece, ao lado da conhecidíssima Claridade , que toma corpo em forma de revista em 1936, e da ante- rior e praticamente esquecida Atlanta - situada à volta de Jaime de Figueiredo na Praia -, a merecer a etiqueta de “instituição cultural” do arquipélago 2 , com que se tenciona destacar a intensidade de actividade nos diversos âmbitos da cultura à volta de um grupo. Acontece que de todo esse fervilhar (do) passado costuma conservar-se apenas o atrapado em letras - de “Certeza” Cabo-Verdiana: Quais as Certezas? O Movimento Literário em Meados do Século XX Maria Felisa Rodríguez Prado Da esquerda para a direita: Arnaldo França, Filinto Elísio de Menezes e Guilherme Rocheteau. Fotografia tirada de Artiletra. 25. Set.-Out. 1997.