Do ritmo musical para o ritmo lingüístico, a partir da análise de uma Cantiga de Santa Maria de Afonso X Gladis Massini-Cagliari UNESP gladis@fclar.unesp.br Resumo: Estudo do ritmo lingüístico em Português Arcaico, período trovadoresco, com base na abstração da estrutura prosódica de um período passado da língua a partir da análise do ritmo musical das cantigas religiosas escritas em galego-português. A exemplificação é feita a partir da Cantiga de Santa Maria 35, atribuída a Afonso X, rei de Castela (1121-1284). Palavras-chave: ritmo lingüístico, prosódia, Cantigas de Santa Maria. 1. Introdução, objetivos e fundamentação teórica Este trabalho objetiva apresentar um estudo do ritmo lingüístico em Português Arcaico, período trovadoresco, com base na abstração da estrutura prosódica de um período passado da língua a partir da análise do ritmo musical das cantigas religiosas escritas em galego-português. Para exemplificar a adequação da metodologia aqui proposta, considera-se a Cantiga de Santa Maria 35, O que a Santa Maria der algo ou prometer, de Afonso X (1121-1284). As Cantigas de Santa Maria (de agora em diante, CSM) são uma coleção de 420 cantigas religiosas em louvor da Virgem Maria, com notação musical, mandadas compilar pelo Rei Sábio de Castela na segunda metade do século XIII, que sobreviveram em quatro códices: o de Toledo (To), o menor e o mais antigo; o códice rico de El Escorial (T), o mais rico em conteúdo artístico, que forma um conjunto (os chamados códices das histórias) com o manuscrito de Florença (F); e o mais completo, o códice dos músicos – El Escorial (E) (cf. Parkinson, 1998, p. 180). Por muito tempo, acreditou-se ser impossível o estudo do ritmo lingüístico de períodos passados da língua, porque esses sobreviveram apenas em registros escritos. No entanto, estudos mais recentes (entre eles, Halle & Keyser, 1971, para o inglês, e Massini-Cagliari, 1995, 1999, 2005, para o Português Arcaico – de agora em diante, PA) têm mostrado que a escolha de textos poéticos para se estudar fenômenos prosódicos (e, em especial, o ritmo) de uma língua, inclusive e principalmente em seus estágios passados, já se provou adequada e eficaz, sobretudo quando se toma a descrição em um nível “mais abstrato” (fonológico e não fonético). Massini-Cagliari (1995, 1999) foi a primeira a elaborar um estudo do acento lexical do PA, ao propor uma metodologia que enfoca os itens lexicais em posição de rima, proeminência principal do verso, para estabelecer os padrões acentuais do PA – período da língua para o qual não sobreviveram registros orais. No entanto, a metodologia adotada nesses trabalhos, mesmo abrindo novos horizontes para estudos de fenômenos prosódicos como silabação, sândi e acento lexical, mostrou-se limitada para a 194 Anais do SIMCAM4 – IV Simpósio de Cognição e Artes Musicais — maio 2008