REIA- Revista de Estudos e Investigações Antropológicas, ano 4, volume 4(2):199-217, 2017 O sagrado e o milênio em Catulé: A performance fílmica e a estética da violência em um movimento político-religioso a partir da obra Vereda da Salvação (1965) Fabiano Lucena de Araujo (PPGA-UFPE) Este ensaio propõe uma reflexão em torno da construção ritual e ficcional em formato audiovisual do movimento político-religioso de Catulé (1955), atentando-se para alguns aspectos conceituais relacionados à manifestação coletiva do sagrado e sua dimensão corporal, performativa e estética. A reflexão adota como referencial de dados e análise a transposição fílmica do texto dramático de Jorge de Andrade (1963), realizada por Anselmo Duarte em (1965) e com praticamente os mesmos atores da montagem teatral (1964) de Antunes Filho (companhia teatral Teatro Brasileiro de Comédia). O movimento político- religioso do Catulé ocorreu durante a Semana Santa de 1955, no município mineiro de Malacacheta (MG), localizado no Vale do Mucuri, nas proximidades do Vale do Rio Jequitinhonha, Microrregião de Teófilo Otoni, na clareira de uma floresta denominada Catulé, nas propriedades da Fazenda São João do Mata. O movimento político-religioso de Catulé foi um incidente caracterizado por uma feição messiânico-milenarista, tendo como pano de fundo um contexto migratório, que envolveu o deslocamento de um núcleo de camponeses por diversas propriedades rurais e que se fixou na mencionada localidade. Não obstante, este núcleo enfrentou conflitos relacionados à sua conversão ao protestantismo, assumindo o Adventismo da Promessa como crença, e as posturas opressoras dos proprietários rurais, destinando terras reservadas a estes trabalhadores à pecuária e o quadro de saída forçada, que estimulou a migração por terras devolutas submetidas à grilagem e à especulação fundiária, oriunda da valorização da região, oportunizada pela construção da Rodovia Rio-Bahia 1 . O núcleo de camponeses instalado em Catulé apresentava uma configuração estrutural formada por 10 famílias, ao todo 44 indivíduos, e estabelecida mediante laços de parentesco e compadrio, afirmados conforme uma lógica embasada no sistema caipira tradicional, primariamente referendada pelo catolicismo rústico patriarcal e na identidade compartilhada pela expropriação das terras, onde o núcleo de posseiros é assimilado forçosamente à condição de meeiros, ou seja, dividir a produção obtida com o proprietário das terras cultivadas. Além de uma repercussão política de conflitos externos ao núcleo, tanto no aspecto 1 Segundo revisão histórica e jornalística de Queiroz (2015). 199