Memória, imagem e esquecimento na cidade de São Paulo: lugares de escravidão, resistência e conflitos silenciados Arlete Fonseca de Andrade 1 Introdução: Desde a contribuição inovadora da Escola de Chicago nas pesquisas antropológicas e sociológicas sobre o espaço urbano e sua influência acadêmica significativa no Brasil a partir da década de 1930, quando professores norte-americanos vieram lecionar na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, como Donald Pierson, Horace Davis, Samuel Lowrie, entre outros, muito vem se produzindo nos departamentos de graduação e pós-graduação em universidades renomadas e por pesquisadores/docentes como José Guilherme Magnani, Heitor Frúgoli, Cornélia Eckert, Gilberto Velho, Alba Zaluar, Eunice Durhan, Roberto da Matta, Raquel Rolnik, entre outros, referências nos estudos urbanos no país. Estudar a cidade traz aspectos imprescindíveis para a análise das metamorfoses do espaço urbano em relação a história, memória, narrativas, relações sociais e outras transformações em decorrência da urbanização ditada pela modernidade. Pensar a cidade é pensar as ruas, o cotidiano do tempo vivido no passado e presente e suas ressignificações, os trajetos que percorremos para trabalho, lazer ou apenas caminhar e contemplar a paisagem. É conviver e estabelecer relações sociais. A rua é o símbolo e o suporte da experiência urbana, lugar e suporte da sociabilidade (Magnani, 2003). Na visão de Henri Lefebvre, a cidade, a rua são o local onde nos encontramos e nos relacionamos. Nele, ora somos atores, ora espectadores. Ele diz: [...] é o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis. Esses lugares animam a rua e são favorecidos por sua animação, ou então não existem. Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela, efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação estipulada e imobilizada. [...] Na rua, e por esse espaço, um grupo (a própria cidade), se manifesta, aparece, apropria-se dos lugares, realiza-se um tempo-espaço apropriado. (Lefebvre, 2008a, pp. 27-28) 1 Pós-doutorado em Ciências Sociais, com área de concentração em Antropologia na PUC-SP. Doutora e mestra em Ciências Sociais e Psicologia Social pela PUC-SP. Bacharel em Ciências Políticas e Sociais pela FESP. Docente na Universidade Metropolitana de Santos.