CAPÍTULO V * LEXICOGRAFIA CHANGANA-PORTUGUÊS: MILANDOS 1 DE EQUIVALÊNCIA Bento Sitoe Quem aceita traduzir contrai uma dívida. Para saldá-la, deve pagar não com o mesmo dinheiro mas com a mesma soma. (Constance B. West 1932:344) 2 [p103] 1 Introdução Há uma percepção quase generalizada de que as línguas moçambicanas e, afinal, grande parte das línguas africanas em geral, ainda não têm uma terminologia desenvolvida nem dicionários adequados ou literatura em profusão para ombrearem com outras línguas ditas mais desenvolvidas. Assim, crê-se que traduzir para estas línguas “desenvolvidas” é praticamente impossível. Wallmach & Kruger (1999) reportam uma atitude similar em relação às línguas africanas da África do Sul. Será isto verdade? O título deste capítulo é bem sugestivo para o tema que nos propomos discutir aqui pois a aptidão e abrangência bem como as estratégias com que as línguas moçambicanas podem ser usadas para traduzir, de modo eficiente, ideias a partir das chamadas línguas desenvolvidas, são um assunto ainda em estudo. A actividade lexicográfica anda de mãos dadas com vários ramos da Linguística Aplicada, nomeadamente a semântica lexical e as teorias de tradução. Como a teoria da tradução diz respeito a um certo tipo de relações entre línguas é, por consequência, um ramo da Linguística Comparativa (Catford 1965). A Lexicografia estuda o léxico englobando diferentes teorias linguísticas e métodos e, de modo particular, na produção de dicionários procura responder a perguntas do tipo: “Que significa a palavra X, Y ou Z?” ou “Como se diz isto na língua X, Y ou Z?” Com o presente capítulo pretendemos, com base na experiência colhida na compilação de dicionários bilingues, principalmente o de Changana-Português (ChaPort) (Sitoe 1996), contribuir na busca de respostas sobre o que fazer e como fazer para que os equivalentes forneçam uma imagem o mais completa possível do emprego real das palavras em situação de comunicação. Iremos discutir como é que o lexicógrafo se serve do sistema conceptual designado por língua em articulação com o sistema conceptual chamado cultura, de modo a que a microestrutura do dicionário bilingue “esteja de acordo com os princípios da coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, contextualização, informatividade e intertextualidade.” (Kotzé 1999: 90). Iremos igualmente dedicar algum espaço ao estudo de dicionários em relação às suas formas, estruturas e usos e ao seu impacto na sociedade. * In Gonçalves, Perpétua e Chimbutane, Feliciano. 2015. Multilinguismo E Multiculturalismo Em Moçambique: Em Direcção A Uma Coerência Entre Discurso E Prática. Porto: Alcance Editores. pp 103-131. 1 Milando é aqui usado como sinónimo de ‘problema’, ‘imbróglio’. É um termo proveniente de várias línguas bantu, entre as quais chope (milando), changana (milandzu), ronga (milandru) (cf. Lopes et al. 2002). 2 Citada por Nida (1964).