O abismo através do espelho Marcos Beccari Posfácio de: FLUSSER, Vilém. Vampyroteuthis infernalis. São Paulo: É Realizações, 2023, p. 245- 264. Col. Biblioteca Vilém Flusser — Orgs. Rodrigo Maltez Novaes & Rodrigo Petrônio. O humano é o sonho de uma sombra. – Píndaro Vampyroteuthis Infernalis é certamente um dos textos mais sofisticados de Vilém Flusser, não apenas por sua incursão ficcional (já explorada em outros textos), mas sobremaneira por sua proficuidade reflexiva, no sentido de ainda suscitar perplexidade por meio de metáforas veementes acerca do mundo contemporâneo. Publicado em 1987, dois anos antes da queda do Muro de Berlim, o livro inicialmente soava antiquado e exagerado, como uma experimentação literária destoante de seu próprio tempo. Pois enquanto as ideologias pareciam ser superadas pelas promessas da social democracia, Flusser manteve-se atento às sinuosidades e aos dissensos inerentes a toda impressão de consenso. Ele sabia que, se a sociedade parecia finalmente apaziguar seus contrastes constitutivos, é porque já não cabia mais muita coisa debaixo do tapete. Hoje, com a volta da extrema direita e sua chegada ao poder em muitos países, os ambientes intelectuais ora se veem imóveis, incapazes de diagnosticar com precisão um fenômeno que aparece dramaticamente como algo inesperado, ora buscam compreendê- lo a partir de coordenadas históricas como as do fascismo, deixando escapar novos fatores conjunturais. No caso do Brasil, em especial, onde ressurgem certos ditames medievais como o da Terra Plana, o da ideologia de gênero e o de que vacinas causam autismo, vemos um destemido anti-intelectualismo impregnando as mais diversas esferas e camadas sociais. E se na Alemanha os crimes nazistas permanecem expostos em memoriais, nas cátedras universitárias, no cinema etc., por aqui já são muitos os que dizem que a ditadura militar não foi tão ruim assim, ou que sequer existiu. Eis a atualidade de Vampyroteuthis Infernalis: o fascismo vigente é uma forma de vida simultaneamente primitiva e atual, um discurso que se passa por novidade e que há muito encontra-se arraigado no solo cotidiano. Alguns diagnósticos o descrevem em termos de “pós-verdade” ou “desconstrução” (como se Derrida tivesse se tornado um bestseller), quando no fundo se trata de algo bem mais antigo e tacanho: é a conspiração