Musicalidade, fala expressão das emoções Patrícia Pederiva UnB pat.pederiva@uol.com.br Elizabeth Tunes Resumo: Neste trabalho, examina-se como a musicalidade surge no homem, o que acontece em estreita relação com a possibilidade de os animais poderem expressar sons por meio de seus órgãos vocais. Busca-se examinar sua gênese e função, fazendo uma descrição sintética de sua história natural, desde a expressão musical nos animais, no homem primitivo até chegar ao homo sapiens sapiens. A biomusicologia, a antropologia da música e a psicologia histórico- cultural são as bases teóricas da presente análise. O exame empreendido permite concluir que, do ponto de vista da gênese, a musicalidade é anterior à fala articulada e que, como animais humanos, temos todos a condição da musicalidade e, portanto, a possibilidade de nos expressar musicalmente. Palavras- chave: musicalidade, emoção, fala. A musicalidade, uma forte marca dos seres humanos, pode ser encontrada também nos animais. Por exemplo, nos pássaros, animais que possuem maior ritmo, tonalidade e variedade na produção de sons vocais, a capacidade de cantar tem sido considerada como algo próximo da musicalidade humana (Cross, 2006). Muitos dos sons que emitem são classificados como canções 1 . Uma das funções da produção sonora dos animais é a comunicação. Em diversas espécies, ela tem uma função sexual, pois os machos cantam para atrair as fêmeas (Slater, 2001). Os pássaros possuem um vasto repertório que, em algumas espécies, encontra-se em constante mudança. Os bicudos são exemplos de pássaros que se distinguem pela variedade em seu canto: Muito provavelmente, sejam os bicudos os pássaros silvestres, criados em cativeiro, com o maior número de notas em um mesmo canto e com a maior diversidade de cantos catalogados. Não obstante os inúmeros dialetos regionais identificados, próprios de coletividades significativas, há ainda, a interpretação individual de um mesmo dialeto por espécimes diferentes. Cada bicudo impõe sua própria personalidade, no andamento, na voz e na melodia e acrescenta ou omite notas na execução do seu canto. Dificilmente encontraremos dois bicudos com cantos idênticos. Por mais semelhantes que sejam, mesmo executando as mesmas notas, cada um irá impor suas próprias características ao executar seu canto. (FEBRAPS, 2007). Há pássaros que também executam duetos o que, segundo Slater (2001), poderia prover indícios das origens e funções do fenômeno do canto grupal humano. No canto em duetos, os pássaros participantes contribuem para a canção, apresentando, por vezes, uma alta precisão de tempo. As duplas podem ser formadas por machos e fêmeas que usam notas diferentes, podendo alternar-se nas melodias. Para 388 Anais do SIMCAM4 – IV Simpósio de Cognição e Artes Musicais — maio 2008