Iluminuras, Porto Alegre, v. 22, n. 57, p. 56-71, outubro, 2021. UM MINISTÉRIO COM CULTURA GILBERTO GIL E OS EXERCÍCIOS DE ANTROPOLOGIA APLICADA Adriana Donato dos Reis 1 Jean Segata 2 No dia 02 janeiro de 2003, na solenidade de transmissão de cargos que dava início ao primeiro governo do presidente Lula, o então Ministro da Cultura Gilberto Gil defendeu em seu discurso de posse uma ampliação profunda do conceito de cultura. Ela incluía culturas populares, afro-brasileiras, indígenas, mulheres, LGBT, periferias, novas tecnologias, entre muitas outras, e não apenas ao universo restrito das belas-artes de origem europeia. Nas suas palavras: O que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas ou dos ritos e da liturgia de uma suposta “classe artística e intelectual”. Cultura, como alguém já disse, não é apenas “uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos”. [...] Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta para além do mero valor de uso. Cultura como aquilo que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura como usina de símbolos de um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação.[…] Desta perspectiva, as ações do Ministério da Cultura deverão ser entendidas como exercícios de antropologia aplicada” (Gil, apud Almeida et al., 2013: 251, grifo nosso) 3 . Ainda em seu discurso, Gilberto Gil também enfatizou a importância do papel ativo do Estado na democratização cultural e de modo perspicaz afirmou que “[...] formular políticas culturais é fazer cultura […]. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. Não cabe ao Estado fazer 1 Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: adriarte@gmail.com ORCID id: https://orcid.org/0000-0003-3543-2172 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: jeansegata@ufrgs.br ORCID id: https://orcid.org/0000-0002-2544-0745 3 Gilberto Passos Gil Moreira, nasceu no dia 26 de junho de 1942 na cidade de Salvador, pai de oito filhos, casado com Flora Gil Moreira, cantor, compositor, instrumentista, produtor musical, com quase 60 discos lançados. Formou-se em administração de empresas pela Universidade Federal da Bahia. Em 1987 foi presidente da Fundação Gregório de Matos em Salvador - Bahia, órgão que correspondia à Secretaria Municipal de Cultura. Entre 1989 e 1992, foi vereador na Câmara Municipal de Salvador, pelo Partido Verde. Vencedor de nove prêmios Grammys. Em 1999, foi nomeado “Artista da Paz”, pela UNESCO. Foi também embaixador da ONU.