77 fragmentum. Santa Maria: Programa de Pós-Graduação em Letras, UFSM, n. 47, Jan./Jun. 2016. ISSN 2179-2194 (online); 1519-9894 (impresso). POESIA E FILOSOFIA: PROBLEMAS DA CRÍTICA POETRY AND PHILOSOPHY: PROBLEMS IN CRITICISM Rodrigo Michell dos Santos Araujo Universidade do Porto, Porto, Portugal Maria Celeste Natário Universidade do Porto, Porto, Portugal Resumo: Este artigo pretende investigar as relações entre a flosofa e a literatura a partir da crítica literária. Para isso, parte-se de dois momentos da crítica: (i) a contribuição metodológica na crítica brasileira, especialmente na obra de Benedito Nunes; (ii) a resposta que o ensaísmo português (Eduardo Lourenço e Fidelino de Figueiredo) dá à questão do pensar e do sentir o mundo, articuladores da poesia (arte) e do pensamento (flosofa). Ao argumentarmos que o trânsito entre os campos disciplinares se dá mediante a construção de um espaço interseccional, será possível problematizarmos categorias empregadas pela crítica como “flosofa da literatura” ou “poética flosófca” e verifcar até que ponto são válidas. Palavras-chave: Poesia; Filosofa; Crítica literária; Pensamento. Abstract: Tis paper intends to investigate the relations between philosophy and literature from the perspective of literary criticism. In order to do that, one considers two diferent moments in critique: (i) the methodological contribution in Brazilian criticism, especially in the work of Benedito Nunes; (ii) the response that the portuguese essayism (Eduardo Lourenço and Fidelino de Figueiredo) gives to the subject of thinking and feeling the world, articulators of poetry (art) and thought (philosophy). By arguing that the exchange between subject felds happens through the construction of an intersectional space, it is possible for us to problematize categories used by criticism, such as the philosophy of literature or philosophical poetry, and to verify the extent to which they are valid. Keywords: Poetry; Philosophy; Literary criticism; Tought. Introdução ao diálogo Nada é imóvel, tudo está em movimento. Por onde, então, começar? Da flosofa indo à poesia ou da poesia indo à flosofa? Correríamos o risco de, ao lançar-nos ao movimento do ir e vir na via de mão dupla, privilegiar algumas destas atividades humanas? Perigo à frente. Dois campos disciplinares que querem conversar, que querem se aproximar, que querem se entrecruzar entre portas, paredes, teto. Sem dúvida, há janelas, e, por isso mesmo, se olham entre os vidros: janela propositalmente entreaberta 1 . De 1 Podemos dizer que é uma imagem estritamente semelhante às imagens oníricas do cineasta