Alétheia: Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo, Volume 1, Janeiro a Julho de 2010. ISSN: 1983 - 2087 48 DA NECESSIDADE – E DO PRAZER – EM SE ESTUDAR O CANCIONEIRO GERAL DE GARCIA DE RESENDE Geraldo Augusto Fernandes 1 RESUMO: Quando, em 1516, Garcia de Resende publicou seu Cancioneiro Geral, preocupava-se em divulgar uma coleção de poemas que tinham sido produzidos em mais de meio século, enquanto Portugal dedicava-se ao que lhe trazia dividendos – os Descobrimentos. Visto em seu conjunto, o Cancioneiro tem sido considerado, injustamente, um repositório da mesmice ou apenas um registro histórico. Na verdade, a compilação resendiana traz não apenas prazer ao leitor, mas, sobretudo, traz em seu bojo a antevisão de escolas literárias vindouro, como o Renascimento e o Barroco. PALAVRAS-CHAVE: poesia palaciana, inventividade, ludicidade Introdução Apesar da magnitude da obra, o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende não tem sido estudado em profundidade. O estudioso português Álvaro J. da Costa Pimpão, na obra Poetas do Cancioneiro Geral, lançada na primeira metade do século passado, afirma que [...] há nele [no Cancioneiro] variedade de inspiração, individualismo literário, que está a precisar de ser posto em relevo através de monografias substanciais. Os poetas do Cancioneiro não têm sido estudados na sua personalidade poética, mas como parcelas de um todo: é tempo de modificar o critério de apreciação [...] (PIMPÃO, 1942, P. 7). Desde então, pouco tem sido feito quanto ao assunto no Brasil; em Portugal e na Galiza existem estudos mais desenvolvidos 2 , contudo, ainda em número, parece, reduzido. Este estudo pretende mostrar que a compilação de Resende deve ser estudada não só pela artesania com que os poetas criaram suas obras, mas também como prova de prazer literário, quando lidos, por exemplo, os poemas antológicos de Sá de Miranda, 1 Doutorando do programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo. E- mail: geraldoaugust@uol.com.br 2 Podem-se citar como exemplos: MORÁN CABANAS, Maria Isabel. Traje, Gentileza e Poesia. Moda e Vestimenta no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Lisboa: Ed. Estampa, 2001; Obras de Álvaro de Brito. Edição, introdução e notas por Isabel Almeida. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997 e O CUIDAR e Sospirar (1483). Fixação do texto, introdução e