16 AVANCA | CINEMA 2023 Czeslaw Milosz: Between Testimony and Prophecy Czeslaw Milosz: Entre o Testemunho e a Profecia Katia M. L. Mendonça UFPA- Universidade Federal do Pará, Brasil Abstract The documentary The Age of Czeslaw Milosz, directed by Juozas Javaitis, commemorates the 100th birthday of Czeslaw Milosz (1911-2004), the Nobel Prize-winning Polish-Lithuanian poet who lived for virtually the entire 20th century. The article intends, in dialogue with Martin Buber’s thought and Paul Ricoeur’s philosophy of testimony, to address the prophetic and testimonial dimension of Milosz’s thought, recovered with poetic mastery by Javaitis’ documentary. Milosz survived two terrible totalitarian experiences of the 20th century, Nazism and Soviet domination. The same, as he said, freed him defnitively “from the illusions and subterfuges” of life and showed him the “shameful nakedness of humanity”. As such, he was, at the same time, a witness who kept the memory of horror alive in his work, and also a prophet, insofar as he was prescient of the dramas and dilemmas that would come to the contemporary world, among them the madness and violence of the masses, the challenges of technology that made the world smaller, and the dominance of scientifc vision in what he, echoing William Blake, called the “kingdom of Ulro”. For Milosz, however, the most signifcant feature of contemporary times would be the profound spiritual crisis of humanity. In a world marked by the advance of attempts at totalitarian domination, the documentary The Age of Czeslaw Milosz contributes to express not only the strength of this form of cinematographic language, but also the poet’s warnings as to the future of mankind. Keywords: Czeslaw Milosz, Documentary, Prophecy, Testimony, Memory. Introdução: o documentário como instância da memória e do testemunho Andrei Tarkovski diria que a função da arte “ é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem.” (Tarkovski, 1998, 49) . Assim o é o documentário de Juozas Javaitis: uma obra de arte cujas imagens abrem as janelas para o infnito, para experiências que envolvem, além dos sentimentos e dos valores, as dimensões espirituais do ser humano. Alternando as belas imagens da Lituânia e da Polônia com passagens da obra de Milosz, assim como de poetas, biógrafos e pessoas próximas a ele, Javaitis consegue desenhar um mosaico onde se ressaltam a beleza e a profundidade espiritual do testemunho do poeta lituano-polonês e de sua arte. E, neste sentido, a atualidade e importância de The Age of Czeslaw Milosz (2012), como, de resto, a obra de Milosz, para o século XXI. Um século à beira de um abismo climático, da destruição das democracias e da repetição da tragédia dos totalitarismos e guerras que emergiram na Europa no século XX. Esses cenários terríveis têm possibilidades de se alastrar em escala global graças ao aporte veloz das tecnologias de comunicação, que disseminam e replicam a violência de imagens. Imagens que conduzem os corações e mentes das massas através do escândalo, antes que do espetáculo, no sentido de Guy Debord. O escândalo, no seu sentido teológico (Skandalon, em grego). Imagens que atuam como “pedra de tropeço”: o dito ou ato menos reto que dá ocasião à queda do ser humano (Mendonça, 2020). Em que pese a polissemia e difculdade em defnir o gênero do documentário, a construção narrativa de Javaitis é um documentário na medida em que reenvia o espectador ao real, como proposto por Gauthier e Guynn (2005, p.18), ou seja, à vida de Milosz e ao século XX. Esse real é, invariavelmente, submetido ao horizonte hermenêutico do realizador, ou como afrma François Niney, “Precisamos lembrar que qualquer plano é um corte de espaço e tempo[...] Sempre há algo fora da tela. Um plano é um ponto de vista subjetivo e parcial. É sempre mais ou menos o real.” (Niney, 2002, 15) The Age of Czeslaw Milosz tem como tema principal o testemunho de um poeta que atravessou o século XX, assistindo e participando das grandes mudanças e tragédias históricas desse período no Ocidente. A narrativa é construída em uma aliança entre o factual e a subjetividade do realizador; onde o testemunho poético de Milosz é intercalado com as imagens cuidadosamente selecionadas de momentos históricos, de seus manuscritos, de paisagens lituanas, tudo unido pela marcante trilha sonora de Ignas Juzokas que conduz a película aos momentos fortes. Aqui montagem e trilha sonora são verdadeiras “marcas da subjetividade” do realizador (Lépine, 2008) Contando com o depoimentos dos que conviveram com Milosz, intelectuais, professores de Berkley, sua secretária etc., a obra não perde o caráter documental, mas este é construído através de um patchwork onde se intercalam as imagens da natureza lituana, da Revolução Russa, da II Guerra Mundial e do mundo contemporâneo. Em of, uma voz masculina narra, representando Milosz, excertos de sua vasta obra. Todos esses recursos constituem o material onde ocorre o diálogo entre realizador e o grande tema do testemunho que atravessa o documentário assim como atravessou a vida e a obra de Milosz. As imagens são janelas para o infnito: seja para o caos, para a destruição, para a violência e para a luta de todos contra todos , seja para a ascensão espiritual (Mendonça, 2018). As imagens são, ao mesmo tempo, aberturas para o invisível (seja ele divino ou infernal) e