Estudos Nietzsche, Espírito Santo, v. 10, n. 2, p. 8-29, jul./dez. 2019 “Contra Schopenhauer e em favor de Platão”: Nietzsche e a estética do erótico no Crepúsculo dos ídolos 1 “Against Schopenhauer and in honor of Plato”: Nietzsche’s aesthetic of erotic in Twilight of idols André Luis Muniz Garcia 2 Resumo Esse artigo objetiva uma interpretação do erótico na obra de Nietzsche Crepúsculo dos ídolos. Para tanto, seguir-se-á uma dupla orientação: em primeiro lugar, é proposta uma discussão sobre o erótico em chave estética, mais precisamente, num contexto em que o embate sugerido entre as visões de Platão e de Schopenhauer sobre a categoria de beleza descortina importante divergência entre interpretações antigas e modernas sobre fenômenos artísticos. Num segundo momento do artigo, pretende-se mostrar que essa perspectiva não é autocentrada, quer dizer, ela não pode ser separada, por exemplo, do esforço de Nietzsche, no Crepúsculo, de traçar as linhas gerais de uma perspectivação da cultura, pois é sua intenção fazer gravitar em torno da representação do erótico sua avaliação sobre elementos indutores ou inibidores de sua concepção de cultura. Quero dizer com isso que não é fortuito (pelo contrário!) o fato de Nietzsche, no Crepúsculo, caracterizar as diversas manifestações da cultura, antes de mais nada, a partir de representações que ora remetem ao belo — no caso das representações que sugerem “elevação da cultura” —, ora ao feio — no caso daquelas que apontam para uma “degeneração da cultura”, como ocorre com o famoso caso em que Nietzsche faz equivaler sua pitoresca caracterização de Sócrates como “erótico” e “feio” àquela (por muitos considerada) “canônica” teoria da decadência, preparada exemplarmente pelo capítulo segundo do Crepúsculo, “O problema de Sócrates”. Palavras-chave: Nietzsche. Estética. Erótico. Pederastia. Cultura. Abstract This article aims to analyze Nietzsche’s conception of erotic in Twilight of idols following a double orientation: firstly, it is proposed a discussion about the erotic in aesthetic context, that is to say, in a context in which the suggested debate between Plato’s and Schopenhauer’s views on beauty reveals an important divergence between ancient and modern interpretation of artistic phenomena. In a second moment, I intend to show that this perspective is not self- centered, that is, it cannot be separated, for example, from Nietzsche’s effort to draw the outlines of his culture interpretation. I argue, it is his intention to derive from the erotic imaginary its evaluation on inducing or inhibiting elements of culture itself. That it is not fortuitous in my opinion. In Twilight of idols Nietzsche aims to characterize the various manifestations of culture, first and foremost, from representations that sometimes refer to the 1 O presente artigo é fruto de versão ampliada de um texto apresentado no XVIII Encontro Nacional da ANPOF, realizando em Vitória, em outubro de 2018, dentro das atividade do GT-Nietzsche. O recurso a certo modo de exposição “prosaico” foi mantido, pois tratava-se de um texto lido para uma plateia plural, composta não só de especialistas. 2 Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Brasília, DF, Brasil. Email: andrelmg@unb.br