Lumen Veritatis - Vol. 5 - Nº 20 - Julho-Setembro - 2012 113 TRADUÇÕES sermão “totA pulchrA es” 1 Roberto Grosseteste 2 Beleza de Maria em sua vida terrena Na Bem-aventurada Virgem não houve mácula do Pecado Original em seu nascimento. 3 Com efeito, como poderia a Santa Igreja celebrar a sua Nativi- dade se Ela tivesse nascido no pecado? Cremos, portanto, que Ela foi purifi- cada do Pecado Original no ventre materno. Essa purificação pode ter ocor- rido de dois modos: ou Ela teve realmente o Pecado Original durante certo tempo, após a infusão da alma racional, mas antes do nascimento do ventre materno foi purificada e santificada por obra do Espírito Santo; ou foi purifi- cada e santificada no mesmo instante da infusão da alma racional. Nesse caso não seria uma purificação de um pecado presente n’Ela durante certo tem- 1) Texto original latino extraído de: GIEBEN, Servus. Robert Grosseteste and the Immaculate Conception (with the text of the sermon Tota pulchra es). Collectanea Franciscana, 28, 1958, p. 211-227. Tradução e subtítulos: Diác. Felipe de Azevedo Ramos, EP. 2) Roberto Grosseteste (1168-1253) foi Bispo de Lincoln (1235-1253) e proeminente filósofo e teólogo da primeira metade do século XIII. No plano filosófico desenvolveu a chamada “metafísica da luz” e intro- duziu a Filosofia Natural de Aristóteles no medievo latino ocidental. Em sua vasta e variada obra figu- ram comentários e traduções de Aristóteles (especialmente Analytica posteriora e Ethica, que influen- ciaram decididamente a filosofia escolástica) e Dionísio Areopagita (através de cuja tradução latina foi introduzido na Escolástica); lógica, filosofia especulativa e teologia pastoral, sermões, poemas, cartas, escritos científicos, além de uma coleção de curtos escritos teológicos denominados Dicta. Roberto en- sinou no Studium franciscano de Oxford entre 1224 e 1235 até a sua nomeação como Bispo de Lincoln. Teve marcada influência entre os franciscanos, como Roger Bacon, São Boaventura e Beato Duns Scoto e entre os filósofos de Oxford do século XIV. Sua Mariologia se encontra sobretudo nos sermões. 3) Embora neste sermão não conste a defesa explícita da Imaculada Conceição (cuja festa já era celebrada na Inglaterra estavelmente desde 1127), mas apenas o nascimento de Maria sem o Pecado Original, há uma forte tradição que atribui a Roberto a defesa desse importante dogma mariano. Entre os autores que mencionam esta defesa feita por Grosseteste, mencionamos: João Vitalis, João de Torquemada, Giles Carlerius, Guilherme de Ware, etc. Além disso, há alguns trechos de outras obras maduras que parecem comprovar a sua defesa da Imaculada Conceição (cf. Ex rerum inititarum, vide infra, nota 5). É bem provável que a posição de Grosseteste tenha servido de fundamento (ao menos indiretamente) para ul- teriores desenvolvimentos a respeito desta doutrina entre os franciscanos durante o período escolásti- co, notadamente através de Beato Duns Scoto, insigne defensor da Imaculada Conceição de Maria. (Cf. McEvoy, James J. Robert Grosseteste. Oxford: OUP, 2000, p. 11; 57; GARCÍA PAREDES, José Cristo Rey. Mariología. Madrid: BAC, 1995, p. 225; GIEBEN, Servus. Op. cit., p. 214-215). De qualquer forma, o presente sermão, embora de grande importância para a história da Imaculada Conceição, é dedicado, sobretudo, a tratar da beleza de Maria em sua vida terrena (tota pulchra) cu- jo auge foi alcançado em sua Assunção, quando é chamada absolutamente bela (omnino pulchra), pela contemplação direta da Luz Divina (cf. GIEBEN, Servus. Op. cit., p. 221).