Desvendando o mecanismo da taquicardia Acácio Fernandes Cardoso I , Antônio Américo Friedmann II , Alfredo José da Fonseca I , José Grindler III , Carlos Alberto Rodrigues de Oliveira I Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) Uma mulher de 62 anos, em tratamento de hipertensão arterial sistêmica, apresentava quadro de palpitações taqui- cárdicas recorrentes. Como o eletrocardiograma (ECG) em repouso era normal, indicaram a monitorização eletrocardio- gráfca ambulatorial de 24 horas (sistema Holter). As conclusões do relatório do Holter (Tabela 1) foram: O ritmo cardíaco de base foi sinusal. Verifcaram-se raras extrassístoles atriais. Observaram-se extrassístoles ventriculares pouco frequentes. Registraram-se vários episódios de taquicardia supraven- tricular sustentada e não sustentada, altamente sugesti- vos de taquicardia por reentrada nodal (Figura 1). Houve correlação das arritmias com os sintomas relatados pela paciente. A paciente foi encaminhada para estudo eletrofsiológico e ablação. DISCUSSÃO As taquicardias paroxísticas supraventriculares (TPSV) com intervalo RP’ curto são geralmente causadas por taquicardias por reentrada nodal ou taquicardias atrioventriculares (mediadas por via acessória). A reentrada nodal ocorre devido à proximidade de fbras de condução rápida ( feixe de His e tratos internodais) com as células de condução lenta do nó atriovantricular (AV). Essa dupla via de condução nodal constitui o substrato ana- tômico para a ocorrência de reentrada. O ECG do paciente em ritmo sinusal é geralmente normal. Quando ocorre extras- sístole, o estímulo pode encontrar a via rápida em período re- fratário e progride pela via lenta. Esse mesmo estímulo pode retornar pela via rápida, agora fora do período refratário (blo- queio unidirecional), e em seguida reentrar pela via lenta, provocando novas despolarizações (taquicardia). 1 Na taquicardia por reentrada nodal (TRN), como o circui- to de reentrada é pequeno (microreentrada), átrios e ven- trículos são despolarizados simultaneamente, e no ECG a onda P coincide com o QRS. Entretanto, na maioria das ve- zes, pode-se evidenciar o término da onda P (despolarizada em sentido retrógrado) na porção fnal do QRS simulando onda s (pseudo s) nas derivações D2, D3 e aVF, ou onda r’ (pseudo r’) em V1. Esta é a evidência mais forte para o diag- nóstico de TRN. 2 I Médico assistente do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). II Professor livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). III Diretor do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Endereço para correspondência: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) — Prédio dos Ambulatórios — Serviço de Eletrocardiologia Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 155 São Paulo (SP) — CEP 05403-000 Tel. (11) 2661-7146 — Fax. (11) 2661-8239 E-mail: aafriedmann@gmail.com Fonte de fomento: nenhuma declarada — Confito de interesses: nenhum declarado Entrada: 4 de maio de 2015 — Última modifcação: 4 de maio de 2015 — Aceite: 5 de maio de 2015 ELETROCARDIOGRAMA Diagn Tratamento. 2015;20(3):109-11. 109