História e sentido do milagre de Cana na liturgia antiga Contributo para a história da Epifania Em ordem à elaboração da tese de doutoramento sobre icono- grafia do milagre das Bodas de Caná reunimos elementos sobre as origens da inserção do milagre na liturgia. Na economia da disser- tação esses elementos foram sintetizados em poucas páginas 1 . Agora, apresentamos o conjunto da investigação feita. Como o milagre de Caná aparece na liturgia antiga (e na actual) unido sobretudo à festa da Epifania, foi interessante e inovador consi- derar a história da Epifania pela perspectiva do primeiro milagre. Conseguimos, assim, pôr em dúvida ou atenuar algumas afirma- ções dos comentários anteriores, que careciam talvez, desta visão nova do conjunto das fontes. Além deste aspecto, a vontade de desvendar o ambíguo e problemático sentido do milagre das bodas 110 conjunto do pensar, viver e sentir primitivos, não deixa de influir no interesse deste contributo. A complexidade do tema apresenta dois aspectos e, por isso, decidimos separar em duas secções o presente estudo. Na verdade, para além da história evolutiva da Epifania, que nos situa o milagre de Caná no tempo, em ordem ao objectivo do nosso trabalho, inte- ressaria arrancar dos textos litúrgicos todo o seu conteúdo simbélico. Assim surgiram as duas partes: uma histórica, outra simbólica. Na primeira, preferimos percorrer as várias Igrejas do Oriente e Ocidente, preocupados sobretudo em marcar etapas. Seguimos 1 Cf. CARLOS A. MOREIRA AZEVEDO, O Milagre de Caná na iconografia paleocristã, II: Estudo interdisciplinar: exegese, patrística, liturgia, iconografia e iconologia, Porto, 1986. XV (1985) DADASKALIA 267-304