- 35 - FaceApp e as fantasias da cisgeneridade Brume Dezembro Iazzetti Núcleo de Estudos de Gênero Pagu Universidade Estadual de Campinas 1. Introdução Em meados de 2020, viralizou nas redes sociais brasilei- ras imagens geradas a partir do “fltro de gênero” do FaceApp. Com o uso de inteligência artifcial, o fltro do aplicativo pos- sibilitava a visualização do que seria o “gênero oposto” da foto enviada pela pessoa usuária — traços alterados, pelos faciais removidos ou adicionados, cabelo se tornando mais curto ou longo, e maquiagem sendo adicionada a rostos agora “femi- nilizados”. Os diversos usos do aplicativo, e sua repercussão por vezes controversa, me mobilizaram a escrever um breve ensaio na plataforma Medium, posicionada enquanto mulher trans e autora transfeminista. Quase dois anos depois, hoje o revisito, mantendo o estilo de escrita mais enxuto e informal do texto original, ao mesmo tempo em que adenso argumen- tos e adiciono referências, que entrecruzam meus atuais inte- resses de pesquisa 1 . Dito isso, esse permanece um ensaio ex- perimental — em uma espécie de etnografa guerrilheira que, a seu modo, visou responder às demandas de seu tempo e as velocidades dos espaços por onde atravessou 2 . 1 Tenho trabalhado nas conexões entre estudos interseccionais e os estudos feminis- tas de ciência e tecnologia (FSTS), particularmente nas relações entre Estado, socie- dade, e ciência. Anteriormente, trabalhei com estudantes trans no ensino superior público (IAZZETTI, 2021b), e atualmente desenvolvo projeto sobre história cultural das travestilidades no período de redemocratização brasileira. 2 Após ser publicado no Medium, o texto foi traduzido ao espanhol a convite da Re- vista Vómito.