Litterata | Ilhéus | vol. 10/2 | jul.-dez. 2020 | ISSN eletrônico 2526-4850 95 O DUPLO, O TRIPLO, O MÚLTIPLO: A FRAGMENTAÇÃO RADICAL DO EU EM O GRIFO DE ABDERA, DE LOURENÇO MUTARELLI Douglas Eraldo dos Santos * Recebido em:05/10/2020. Aceito em: 28/06/2021 Resumo: Neste trabalho interpretamos a narrativa O Grifo de Abdera, de Lourenço Mutarelli (2015), construindo diálogos dessa com o fenômeno do duplo e, ainda, sob a luz da ficção brasileira contemporânea em sua estética de autoficção e metaficção. Para tanto, o fizemos à luz de estudos contemporâneos acerca da literatura brasileira e em diálogo com teorias como a da psicanálise e os diferentes desdobramentos do Eu. Nesse sentido, o trabalho de Freud sobre o duplo contrastado com o de Clément Rosset sobre a ilusão do duplo constituem ferramentas de auxílio à interpretação da narrativa ora analisada. Por fim, concluímos que entre a ilusão e a patologia que é ou pode ser o duplo, Lourenço Mutarelli radicaliza o fracionamento e a multiplicação do Eu numa tentativa de apreensão dos tantos reais que lhe sejam possíveis. Palavras-chave: Autoficção, Literatura Brasileira Contemporânea, Metaficção. Introdução Não tinha consciência de meu duplo até o cochilo que dei depois de comer uma omelete. Então vamos lá. (MUTARELLI, 2015, p.20). Quantos livros e quantos autores podem existir dentro de um livro? Quais as fronteiras entre “o real” e a ficção? O que fazer quando todas essas informações estão embaralhadas numa radical fragmentação do Eu? O Eu-autor, o Eu-personagem, o Eu-escritor, etc. Quais as fronteiras entre ficção e a autoficção, entre a biografia e a autobiografia? São, entre outras, possíveis e interessantes perguntas a se fazer quando pensamos sobre O Grifo de Abdera, de Lourenço Mutarelli (2015). O romance é o sétimo da carreira do autor paulistano, talvez aquele em que o jogo de espelhos ocorra de maneira mais intensa. Fortemente marcado pelo delírio e pela ilusão, cada elemento da obra, não apenas o romance em si, mas também o “objeto livro” e todos os seus mecanismos paratextuais procuram colocar o leitor em confronto com o fenômeno do duplo e com a cisma do que é biográfico e o que é construção ficcional. Por conseguinte, o duplo, o triplo, os múltiplos são * Graduado em Letras pela Universidade Federal de Pelotas - UFPEL; Professor de Língua Portuguesa e literatura do estado do Rio Grande do Sul e do Município de Lajeado/RS. Mestrado em andamento no Programa de Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul, UNISC, Brasil. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior CAPES.