1 Trajetórias familiares escravas - um estudo de caso 1 Maísa Faleiros da Cunha Resumen Este trabalho reconstitui as trajetórias de famílias escravas pertencentes a duas gerações de escravistas. Apresentar a família de Adriana e Damião não ocorreu ao acaso. Marcada pela violência, a história desse casal de cativos é muito mais rica e complexa do que poderíamos considerar. Envolve uma gama de atores de variados estratos sociais: livres, escravos e libertos que teceram suas relações ao longo de décadas. Esse poderia ter sido mais um assassinato com motivações passionais, não fosse o fato de Adriana e Damião terem nascido em uma mesma escravaria, seus pais terem sido companheiros de cativeiro e seus proprietários descenderem de uma importante família de escravistas do norte paulista (e sul de Minas), a dos Junqueira. Participo a V. S a . [delegado de polícia] que chegando eu hoje em minha casa, achei a minha escrava Diriana (sic) sua filha, ambos matadas pelo escravo Damião, marido da dita escrava, por isso commonico a V. S a para dar as providências necessárias. Participo lhe também que não achei mais o escravo em casa. Bella Vista 27 de outubro de 1878. Jose Esteves de Andrade (Arquivo Histórico Municipal de Franca AHMF Processo Crime). O trágico desfecho da família de Adriana e Damião (e não Diriana como o documento menciona) se deu na madrugada do dia 27 de outubro de 1878, na Fazenda Olhos d’Água, município de Franca. Além de Adriana, o preto Damião também desferiu golpes de machado contra a ingênua Águida, que se encontrava no colo de sua mãe. Segundo os peritos que realizaram o exame de corpo de delito, Adriana era preta e sua filha de cor fula com três a quatros meses de idade. Damião foi julgado e sua sentença proferida em 21 de abril de 1879. O cativo foi condenado a levar 400 açoutes e a trazer ferro no pescoço pelo espaço de dois anos. A sentença estipulava que o réu não poderia receber mais de 50 açoites por dia, assim a punição foi efetuada e, em três de maio de 1881, o cativo finalmente se livrou do ferro que carregava no pescoço. Apresentar a família de Adriana e Damião não ocorreu ao acaso. Marcada pela violência, a história desse casal de cativos é muito mais rica e complexa do que poderíamos considerar. Envolve uma gama de atores de variados estratos sociais: livres, escravos e libertos que teceram suas relações ao longo de décadas. Este poderia ter sido apenas mais um crime, não fosse o fato de Adriana e Damião terem nascido em uma mesma escravaria, seus pais terem sido companheiros de cativeiro e seus proprietários descenderem de uma importante família de escravistas do norte paulista (e sul de Minas), a dos Junqueira. 1 Trabalho apresentado no IV Congreso de la Asociación Latinoamericana de Población, realizado em La Habana, Cuba, de 16 a 19 de novembro de 2010. Doutora em Demografia, professora substituta na Unesp/Franca (maisa_cunha@yahoo.com.br ).