Ciência da Informação - Vol 24, número 3, 1995 - Artigos O léxico na economia da língua * Margarira Correia Resumo A economia é frequentemente referida como um dos princípios basilares das línguas naturais. Porém, a economia é, em geral, apenas associada às componentes fonológica e sintáctica do conhecimento linguístico. O léxico, ao ser geralmente entendido como listagem das palavras de uma língua associadas às suas características idiossincráticas, parece contrariar este princípio. Porém, o léxico possui também mecanismos que permitem tornar as línguas naturais sistemas de comunicação extremamente económicos. Apresentar-se-ão sumariamente alguns desses mecanismos, nomeadamente a eliminação de informação redundante, as relações morfológicas entre palavras e a extensão do poder denominativo de cada unidade lexical. Será retomada a idéia de que a polissemia contribui decisivamente para a economia do léxico, e referir-se-á o papel da polirreferência, explicitando-se a distinção entre estes dois conceitos. Procurar-se-á ilustrar como essa contribuição se processa, tomando-se como exemplos dados do léxico da língua portuguesa, bem como da língua gestual portuguesa. Palavras-chave Léxico; Economia da língua; Formação de palavras; Mecanismos de gestão e geração de significado lexical. 1 É frequente afirmar-se que as línguas naturais se regem pelo princípio da economia, a propósito de fenômenos diversos. Sumariamente, poderemos dizer que a economia se traduz em dois aspectos fundamentais: – o facto de, através de um sistema relativamente delimitado em termos de unidades operatórias e de regras de funcionamento, os falantes de uma língua serem capazes de falar de todos os aspectos da realidade que os rodeia, realidade factual ou ficcional, concreta ou abstracta; – o facto de qualquer língua tender para a simplificação, pela eliminação de toda e qualquer informação que possa ser tida como redundante. Este aspecto prende-se com o chamado princípio do menor esforço. O conhecimento linguístico é composto por diversas componentes que, interligadas, permitem ao falante produzir e compreender enunciados na sua língua. Assim, é frequente distinguirem-se os seguintes tipos de conhecimento: conhecimento fonológico – os sons que constituem fonemas da língua, bem como os tipos de sequências de sons permitidos no seu seio e ainda as regras que determinam as variações que esses sons sofrem em virtude do contexto em que se apresentam as regras fonológicas; *Uma primeira versão deste texto foi apresentada nos Estudos Gerais Livres, na Reitoria da Universidade de Lisboa, a 2 de maio de 1995.