André Filipe Oliveira da Silva Página | 10 Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 16, n. 2, jul.- dez., 2023 PROPRIEDADE RÉGIA E INSTABILIDADE CLIMÁTICA: ESTRATÉGIAS E SOLUÇÕES DE GESTÃO RURAL NO NOROESTE PORTUGUÊS NAS VÉSPERAS DA PESTE NEGRA ROYAL PROPERTY AND CLIMATE INSTABILITY: RURAL MANAGEMENT STRATEGIES AND SOLUTIONS IN NORTHWEST PORTUGAL ON THE EVE OF THE BLACK DEATH https://doi.org/10.22228/rtf.v16i2.1313 André Filipe Oliveira da Silva CITCEM - U. Porto e CIDEHUS - U. Évora. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0223-8314 E-mail: andre.f.oliveira.silva@gmail.com Resum0: O reinado de D. Afonso IV foi um período de intensa ação régia, com uma expansão notável do oficialato régio, conflitos jurisdicionais importantes e intervenção em todos os níveis de administração da res publica portuguesa. A análise da ação dos oficiais régios em tempo de profundas alterações climáticas revela-nos, contudo, uma notável flexibilidade e uma simbiose com o interesse de foreiros e lavradores, contribuindo para um aparente esbatimento das consequências de condições ambientais adversas. Palavras-chaves: Século XIV; Grande Transição; Portugal Medieval; História Ambiental Introdução Na primeira metade do século XIV, à semelhança do que se verifica ao longo dos primeiros séculos da nacionalidade, a sustentabilidade económica da Coroa portuguesa provém de duas grandes fontes regulares. Por um lado, o património pessoal do rei, sob domínio próprio ou entregue a membros da família real, do qual seria retirado todo o rendimento possível, das rendas e produções (no caso das poucas terras em exploração direta), às taxas, impostos, tributos e direitos banais; por outro, surge a receita dos mais diversos impostos e direitos régios, cobrados um pouco por todo o reino, cujo rol vai crescendo ao longo dos séculos XIV e XV, fruto de uma cada vez mais complexa e eficaz máquina administrativa, simultaneamente capaz de expandir a capacidade de recolha mas também responsável parcial pela necessidade dessa mesma expansão. A partir do último Abstract: The reign of King Afonso IV was a period of intense royal action, with a notable expansion of the royal officialdom, important jurisdictional conflicts and intervention at all levels of administration of the Portuguese res publica. Analysing the actions of royal officials at a time of profound climate change, however, reveals a remarkable flexibility and symbiosis with the interests of landowners and farmers, contributing to an apparent blurring of the consequences of adverse environmental conditions. Keywords: 14th century; Great Transition; Medieval Portugal; Environmental History