18 janeiro 2023 www.revdesportiva.pt Biomecânica e Traumatologia do Stand-up Paddle Dr. Gonçalo Modesto 1 , Dr. Ricardo Dias 1 , Dr. João Mendes 1 , Dr. Emanuel Homem 1 , Dr. Diogo Lino Moura 2 1. Interno de Ortopedia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC); 2 Docente de Ortopedia e Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Assistente Hospitalar de Ortopedia do CHUC. RESUMO / ABSTRACT O stand-up paddle (SUP) surgiu como uma mistura dos desportos de surf e de remo, no qual o praticante está em posição bípede, em equilíbrio sobre a prancha, o que altera a biomecânica da remada, em particular por ser necessário um arco de movimento menor para as articulações do ombro e cotovelo, comparativamente aos outros desportos de remo. É exigido um elevado nível de equilíbrio dinâmico e resistência de toda a musculatura do tronco, glúteos e membros inferiores de modo a suportar a força isométrica necessária à remada. As lesões traumáticas agudas representam cerca de 58% a totalidade das lesões, enquanto as crónicas estão na sua maioria relacionadas com a sobreuso e associadas ao atleta que pratica SUP com mais frequência, devido ao elevado número de movimento típicos da modalidade. Stand-up paddleboarding (SUP) is a water sport that combines surf and paddling, in which the per- former is in a bipedal position, balanced on the board, which changes the biomechanics of rowing, mostly because a smaller range of motion is required for the shoulder and elbow joints, compared to other rowing sports. A high level of dynamic balance and resistance of all the muscles of the trunk, gluteal and lower limbs capable of withstanding the isometric strength required for paddling. Acute injuries constitute most injuries in rowing sports and most chronic injuries are related to overload and are associated with athletes who practice SUP more frequently, due to the high number of repeated and symmetrical movements. PALAVRAS-CHAVE / KEYWORDS Stand-up paddle, prancha, remo, tronco, ombro Stand-up paddle, board, paddle, trunk, shoulder Tema 2 Rev. Medicina Desportiva informa, 2023; 14(1):18-20. https://doi.org/10.23911/stand-up_paddle_2023_jan Introdução O stand-up paddle (SUP) surgiu como uma mistura dos desportos de surf e de remo. Com origem no Hawaii na década de 1940, este desporto é agora praticado em todo o mundo em diferentes modalidades e em vários níveis de intensidade. Recen- temente foi impulsionado e alcan- çou enorme popularidade devido à introdução das pranchas insufláveis, facilmente transportáveis, o que alargou a sua prática a mais popula- ção. As suas modalidades vão desde o paddling recreativo em águas cal- mas de lago ou rio, paddling de lon- gas distâncias em mar aberto e SUP surfing na rebentação das ondas. 1 Biomecânica do stand-up paddle Nesta modalidade o atleta encontra- -se em posição bípede em cima de uma prancha (± 3-5m de com- primentos, ± 1m de largura) e impulsiona-se na água através de um remo de lâmina única (± 2m de comprimento) (figura). O SUP atrai cada vez mais prati- cantes pela facilidade de acesso ao material, conexão com a natureza e benefícios no equilíbrio, força e resistência muscular. Afirma-se como uma atividade física de baixo impacto, muito versátil, adequada a todos as idades e níveis de aptidão, podendo ser praticada em qualquer superfície de água. A sua prática combina componentes de treino cardiovascular e exercícios de força dos membros e do tronco, na qual são necessárias contrações isométri- cas dos músculos de todo o tronco, glúteos e musculatura dos membros inferiores de modo a contrabalançar as forças rotacionais resultantes da remada. 2-4 Na modalidade de SUP surfing, o exercício é primariamente aeróbio, com picos de intensidade anaeróbia durante a fase de surf e passagem pela rebentação. É também muito dependente das condições atmos- féricas, nomeadamente a altura da onda e da velocidade do vento, correlacionadas diretamente com o esforço físico exigido. Este esforço é amplificado pela posição bípede na prancha que requer equilíbrio adicional e maior recrutamento da musculatura postural, em compa- ração ao decúbito ventral no surf tradicional. 5 Os principais componentes da remada no SUP são: entrada, puxada e saída do remo da água. A fase de entrada corresponde à entrada da lâmina do remo na água, a fase de puxada corresponde à remada com objetivo de impulsão do atleta e prancha sobre a superfície de água, e a fase de saída corresponde à retirada da lâmina da água. 2 É exigido um elevado nível de equilí- brio dinâmico e resistência de toda a musculatura do tronco, capazes de suportar a força isométrica necessária à remada. A estabilidade multidirecional é uma exigência de forma a otimizar a performance e, simultaneamente, minimizar o risco de lesão. 6 Assim, o SUP assume-se como uma modalidade que potencia o controlo postural e a resistência isométrica do tronco. Apesar de partilhar características com outros desportos aquáticos de remada, o SUP tem diferenças biomecânicas consideráveis face a estes. No SUP, o atleta está em posição bípede, em equilíbrio sobre a prancha, o que altera a biomecânica da remada, em particular por ser necessário um arco de movimento menor para as articulações do ombro e do cotovelo, comparativamente aos outros des- portos de remo. A literatura cientí- fica reporta diferenças significativas na cinemática da remada de acordo com o nível de experiência do atleta. De forma geral, o atleta inexperiente tende a apresentar maior arco de movimento a nível da articulação do ombro e menor flexão da anca durante a remada. Existe maior ati- vação do músculo bicípite braquial e musculatura do antebraço para gerar a força da remada, estando esta maioritariamente dependente do movimento do ombro. Pelo contrário, atletas mais experientes apresentam maior arco de movi- mento a nível da anca, com maior grau de flexão durante as três fases da remada. A maior flexão da anca explica que a maioria dos atletas