ethic@ Florianópolis v. 8, n. 2 p. 247 - 254 Dez 2009. NATURALISMO E EXISTENCIALISMO NA TEORIA MORAL DE RICHARD HARE NATURALISM AND EXISTENTIALISM IN RICHARD HARE’S MORAL THEORY MARCO ANTÔNIO OLIVEIRA DE AZEVEDO (Centro Universitário Metodista - IPA / Brasil) Resumo Em um artigo de 1966, Amartya Sen procurou mostrar que mesmo Richard Hare, um devoto explícito do antinaturalismo em ética, ainda que inadvertidamente, incorreu num tipo de naturalismo que Sen intitulou de existencial. Neste breve artigo, traço um resumo dessa crítica à teoria de Hare, em especial, da chamada “Lei de Hume”, a qual Sen preferiu apropriadamente intitular “Regra de Hare”. Pretendo mostrar como esse tipo peculiar de “existencialismo” nos conduz, ainda que sob o possível protesto de Hare e seus seguidores, a conclusões subjetivistas e relativistas sobre a moralidade. Palavras-chave: Richard Hare, superveniência, descritivismo, prescritivismo, prescritivismo universal, prescritivismo existencial. Abstract In a paper of 1966, Amartya Sen tried to show that even Richard Hare, an explicit devotee of antinatu- ralism in ethics, even inadvertently, incurred in a kind of naturalism that Sen has entitled existential. In this paper, I did an outline of that criticism of Hare’s theory, especially the so-called “Hume’s law”, what Sen’s preferred to name “Hare’s law”. I want to show how this peculiar kind of “existentialism” leads us up to subjectivist and relativist conclusions about morality, notwithstanding Hare’s and his many followers’ possible protests. Key-words: Richard Hare, supervenience, descriptivism, prescriptivism, universal prescriptivism, ex- istential prescriptivism. A descontinuidade ou o hiato lógico e semântico entre descrever e aprovar é um dos pilares centrais da teoria de Richard Hare. 1 Qualquer proximidade semântica entre esses dois tipos de atos lingüísticos seria uma arma nas mãos do “naturalista”, o arquiinimigo de Hare. No entanto, uma das características, e talvez a mais essencial, das palavras morais para o próprio Hare é sua super- veniência. ‘‘Bom’ é um epíteto superveniente’ quer dizer: há um tipo de relação entre aprovações e descrições que nos impede de empregar palavras morais com independência dos fatos. 2 Com efeito, qualquer um que prescreva ou avalie algo se encontra logicamente comprometido a fazer a mesma prescrição ou a mesma avaliação em circunstâncias equivalentes. Mas isso é o mesmo que dizer que há certa dependência lógica e, plausivelmente, semântica entre descrições e avaliações! Ora, não era exatamente isso o que pretendia o naturalista? Tome-se o seguinte exemplo. Se da premissa: (2) ‘Este carro é confortável’, alguém obtiver a conclusão: