ISBN 978-65-86901-53-5 471 Anais do XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PROFESSORES DE LITERATURA PORTUGUESA DE NACIONALISMOS HIPERBÓLICOS E LEITURAS FÁCEIS: A CONSPIRAÇÃO D’O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS Sara Grünhagen 1 RESUMO Este trabalho visa analisar uma das obras menos conhecidas entre as muitas referências presentes n’O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Sara- mago: a novela Conspiração (1936), de Tomé Vieira. Trata-se de um pequeno livro que, se não fosse por esta recuperação em um romance tão marcante e tão estudado da Literatura Portuguesa, muito provavelmente permaneceria esquecido. O objetivo desta análise será explorar o modo como a novela de Vieira é usada como testemunho de um tempo, de um pensamento e de uma adesão política, associando-se a um tipo de criação paradigmática daquilo que se produziu não apenas durante o Estado Novo português, mas por toda a Europa e além-mar, e que pela sua relativa uniformidade se constituiu como um gênero narrativo, o da propaganda. Nesse sentido, Conspiração vai exer- cer uma função importante n’O ano, contribuindo para apresentar o discurso que vigorava na época e no país em que Ricardo Reis é situado. Com o auxílio dos conceitos de intertextualidade e intermidialidade, e recorrendo-se tan- to aos materiais preparatórios da obra quanto aos originais resgatados por Saramago, buscar-se-á mostrar que a Conspiração do romance, reencenada, comentada e modificada, contribui para a sua estrutura narrativa labiríntica em mise en abyme, como uma versão em escala reduzida e romantizada do mundo que Ricardo Reis é obrigado a confrontar. Palavras-chave: José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis, propagan- da, intertextualidade, intermidialidade. 1 Doutora em Literatura Portuguesa pela Université Sorbonne Nouvelle, em cotutela com a Universidade de Coimbra. Atualmente leciona na Université Sorbonne Nouvelle.