5 Nota introdutória: escutar para crer MADALENA OLIVEIRA, ALBERTO SÁ & PEDRO PORTELA madalena.oliveira@ics.uminho.pt / albertosa@ics.uminho.pt / pedroportela@ics.uminho.pt Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade - Universidade do Minho (Portugal) A diferença entre ouvir e escutar não é um exclusivo da língua por- tuguesa. Pelo menos as línguas mais próximas na Europa fazem a mesma distinção entre os dois verbos: oír e escuchar, em castelhano; ouïr e écouter, em Francês; sentire e ascoltare, em Italiano; to hear e to listen, em Inglês; hören e zuhören, em alemão. E em todos estes idiomas a divergência entre as duas ações radica no mesmo pressuposto: ouvir diz respeito a um ato relativamente involuntário, enquanto escutar supõe prestar atenção, ou, se quisermos, um ato de vontade, uma escolha intencional, até um certo sentido de alerta, como sugere, por exemplo, a expressão estar à escuta. É assim que Barry Truax propõe diferenciar as duas palavras em Acoustic communication, ao considerar que escutar envolve “fazer um esforço” e ouvir se traduz por uma ação mais passiva de captação do som (Truax, 2001, p. 18). Sensível no campo dos estudos de som, a distinção entre ouvir e escutar também foi explicitada por Roland Barthes, no texto que escreveu, em 1976, para a Enciclopédia Einaudi, a propósito do termo “escuta” (re- publicado no livro O óbvio e o obtuso). Dizia, então, o semiólogo logo na abertura do artigo que “ouvir é um fenómeno fisiológico” e que “escutar é um ato psicológico” (Barthes, 2018, p. 235). Numa análise mais detalhada, as duas palavras também surgem em Keywords in sound (Novak & Saka- keeny, 2015), associadas aos termos audição (hearing) e escuta (listening). A propósito da palavra hearing, diz Jonathan Sterne que ouvir está conotado com “a perceção do som” (Sterne, 2015, p. 65), sendo a audição um sentido imersivo, que nos coloca no interior dos acontecimentos (Sterne, 2015, p. 67). Já Tom Rice, que escreve a propósito da escuta, acrescenta que escutar é “prestar atenção a algo com um grau de foco” (Rice, 2015, p. 99). Escutar, diz o autor, “envolve a alocação de atenção e consciência” (Rice, 2015, 100).