Vozes de pessoas trans no Brasil e em Portugal: discursos e práticas patologizantes em transformação? Marcus Vinicius de Paula Pereira Junior Instituto de Psicologia - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Edna Lúcia Tinoco Ponciano Instituto de Psicologia Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Centro de Estudos Sociais Universidade de Coimbra Renata Gonçalves Roma Instituto de Psicologia Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Introdução Importantes transformações vêm ocorrendo no mundo nos últimos anos, com impactes significativos à humanidade. Focando-se nas questões sociais, no âmbito das relações de género e sexualidade, ressalta-se a crescente problematização sobre práticas normativas e que têm promovido a ressignificação de pensamentos e comportamentos direcionados à população LGBTQIA+ [1,2]. No campo das transidentidades, importa compreender sobre como tais mudanças têm alcançado pessoas transgéneras em seus processos de subjetivação, rompendo em definitivo com discursos patologizantes e estigmatizantes [3]. Brasil e Portugal avançam em aspetos voltados para a população trans, consoante às práticas de políticas afirmativas. No entanto ainda mantém-se um viés socialmente marginalizante, resultante de décadas de práticas que alocam as transidentidades em uma condição de perturbação psicopatológica [4]. Diante deste cenário apresenta-se a seguinte questão: Auscultando diretamente pessoas transgéneras em seus processos de subjetivação, é possível a identificação de avanços ou retrocessos nas sociedades quanto à rutura ou manutenção de discursos e práticas que estigmatizam e marginalizam as transidentidades? Assim, este trabalho tem por objetivo compreender a problemática acerca da manutenção de uma visão patologizante sobre transidentidades no Brasil e em Portugal, a partir do discurso dos entrevistados. Metodologia Tratando-se de uma abordagem qualitativa, comparativa e com recurso à análise de conteúdo [5], procedeu-se à realização de entrevistas semiestruturadas com quatro pessoas transgéneras, duas brasileiras e duas portuguesas, com a recolha de relatos sobre suas experiências de vida, principalmente no que respeita a momentos relacionados ao quotidiano e aos respetivos processos transicionais. Por meio de consentimento informado, livre e esclarecido, as entrevistas ocorreram em formato online. A recolha de dados encontra-se ao abrigo da Lei e do Regulamento Geral de Proteção de Dados, respetivamente, no Brasil (Lei nº 13709/2018) e em Portugal (EU 679/2016). Destacamos algumas das falas dos participantes, apresentados por nomes fictícios. Resultados e Conclusão Atentando para as narrativas, foi possível a identificação de transformações que já vêm ocorrendo, no que respeita a perceções próprias e das sociedades sobre os processos de subjetivação de pessoas transgéneras, nomeadamente a ressignificação de olhares normativos. Por consequência, nessas falas estão demarcadas experiências emocionais de tristeza que convive com a felicidade da conquista. Considera-se, portanto, no âmbito da valorização dos direitos humanos, uma urgência em avanços mais expressivos e globais, que contribuam para mudanças em discursos e práticas direcionadas às transidentidades e, consequentemente, à população LGBTQIAP+. Palavras-chave: Transidentidades; Subjetividades; Brasil; Portugal. Referências bibliográficas [1] Butler, J. (2016). Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade (11ªed.). Civilização brasileira [2] Aleshire, M. E. (2016). Sexual orientation, gender identity, and gender expression: What are they? Journal for Nurse Practitioners, 12(7), 329330. https ://doi.org/10.1016/j.nurpra.2016.03.016 [3] De-Paula-Pereira-Jr., M. V.; Ponciano, E. L.; & Roma, R. G. (2021). "Brasil, Portugal e a patologização das transidentidades: Uma revisão narrativa". In: A. C. Bortolozzi; P. M. Ribeiro; F. Teixeira; I. Chagas; T. Vilaça; P. P. Mendes; S. M. de Melo; C. R. Rossi; I. P. Martins: Questões Sobre Gênero: Novos paradigmas e horizontes, 51-68. Gradus Editora. https://doi.org/10.46848/000690 [4] Middleton, S. (2021). Gender Wars and Sexuality Education in 2021: History and Politics. New Zealand Journal of Educational Studies, 56, 227-243. https ://doi.org/10.1007/s40841-021-00220-5 [4] Vieira, E. S., Pereira, C. A., Dutra, C. V. & Cavalcanti, C. S. (2019). Psicologia e Políticas de Saúde da População Trans: Encruzilhadas, Disputas e Porosidades. Psicologia: Ciência e Profissão, 39(spe3), e228504. https ://dx.doi.org/10.1590/1982-3703003228504 [5] Bardin, L. (2017). Análise de conteúdo. Edições 70. Apoio: * * * Falas de João Português, 22 anos “Quem tem conhecimento deste tipo de situação respeita e chega a admirar pessoas que passam por este processo. No entanto, hoje em dia já devíamos estar mais evoluídos no que toca ao amor e respeito pelo outro.” “Já pensei/ tentei suicidar - me várias vezes (…). Apesar disto há que pensar e acreditar acima de tudo que um dia vamos ser quem queremos ser e que no caminho podemos cair muitas vezes, podemos ser deixados para trás por quem mais amamos, mas ficará tudo bem.“ Falas de Alina Brasileira, 28 anos Hoje tem uma preocupação maior de dizer, tipo: “Não, não tem nada de errado nisso”, então, uma coisa que eu acho maravilhoso de ver hoje e (…) é ver pessoas trans mais novas, e tipo pessoas trans que estão saindo do armário mais novas e que tão dizendo, tipo: “Não, esse é meu nome, esses são meus pronomes e eu não vou aceitar o contrário.” “Eu, várias vezes eu ia dormir chorando, tipo, sem saber como lidar com a situação de que eu tava envelhecendo e que aquilo era uma coisa extremamente incômoda porque o meu corpo tava mudando de um jeito que eu não tinha controle e eu me sentia mal com aquilo, e eu me sentia, tipo, toda quebrada e era uma situação desagradável.” Falas de Lúcia Portuguesa, 44 anos Por vezes atravessa - se um turbilhão de sentimentos e surgem dúvidas, sobretudo no início do processo. É fundamental ter - se uma ocupação para evitar pensamentos autodestrutivos, porque eles surgem de vez em quando. A companhia de amigos ajuda a superar os dias menos bons, assim como as viagens. Há mais gente informada e o respeito pela identidade de gênero é maior. Ainda assim, existe uma franja da sociedade bastante conservadora e pouco aberta à liberdade de escolha e de orientação de gênero. Uma parte desta população está ligada a crenças religiosas e recusa - se a abrir a mente. Falas de Marisa Brasileira, 36 anos Acho que a sociedade tem tendência a evoluir e melhorar, e isso faz com que as pessoas tenham a mente mais aberta. Mas acho que, enquanto a nossa sociedade for tão centrada em religião e no binário de homem e mulher e esperar algo diferente de cada, qualquer discussão sobre gênero será complicada. Os sentimentos são um misto de euforia com desespero. Você se sente bem conforme caminha na direção que você quer seguir, mas também sente uma resistência muito grande, o que causa uma depressão e um constante cansaço. Constantemente eu me perguntava se valia a pena, mesmo tendo os momentos de felicidade que essas escolhas me traziam. View publication stats