Formação da rede regional de abastecimento do Rio de Janeiro: a presença dos negociantes de gado (1801-1811) Renato Leite Marcondes * A amplitude do comércio da carne pode ser avaliada por este desfilar ininterrupto de boiadas que perambulam pela colônia [...] Este comércio e consumo de carne relativamente avulta- dos são propulsores de uma das principais atividades da colô- nia: a pecuária; a única, afora as destinadas aos produtores de exportação, que tem alguma importância. Não é com justiça que se relega em nossa história para um plano secundário.[..] Recalcada para o íntimo dos sertões, escondem-na à vista, a intensa vida do litoral, os engenhos, os canaviais, as outras grandes lavouras. (Caio Prado Jr.) O município do Rio de Janeiro representava o principal centro urba- no e comercial brasileiro no início do século XIX, especialmente após a transferência da corte portuguesa em 1808. Neste período, a população carioca crescia a taxas significativas, ampliando a demanda de mercado- rias. 1 O rápido florescimento deste mercado fazia convergir para a cidade uma gama extremamente vasta de produtos nacionais e estrangeiros, que não provinham dos seus arredores. No plano interno, as relações mercan- tis alcançavam desde o extremo sul do País até o Nordeste brasileiro, den- tro das quais se destacavam as estabelecidas com Minas Gerais. O abasteci- mento do Rio de Janeiro fomentava a produção de mercadorias para o consumo interno, que no século XVIII supriam as regiões mineratórias. Uma das principais redes de abastecimento interno ocorria entre o Sul da colônia e o Sudeste. A existência de campos naturais favorecia a criação de gado vacum, cavalar e muar nas áreas sulinas. O desenvolvimento da mineração e, posteriormente, das lavouras de cana e do café dinamizou a Topoi, Rio de Janeiro, mar. 2001, pp. 41-71.