P rofundamente marcada pela História, a literatura dos países africanos de língua portuguesa traz a dimensão do passado como uma de suas matrizes de significado. A brusca ruptura no desenvolvimento cultural do continente africano, o contato com o mundo ocidental estabelecido sob a at- mosfera de choque, a intervenção direta na organização de seus povos consti- tuíram elementos de peso na reorganização das sociedades que fizeram a independência de cada um de seus países. Tão recentes, e feitas no complexo quadro da conjuntura internacional dos anos 70, essas independências não dariam conta do desejo de acertar o passo na direção do projeto utópico que mobilizara os africanos. Como herança, o colonialismo deixava uma sucessão de lacunas na história dessas terras e muitos escritores, falando de diferentes lugares e sob diferentes perspectivas, parecem assumir o papel de preencher com o seu saber esse vazio que a consciência vinha desvelando. Uma visão panorâmica da literatura angolana, por exemplo, permite ver que a valorização do passado é, sem dúvida, um dos tópicos do programa elaborado pelo grupo de escritores que se propõe a fundar a moderna poesia de Angola. Em fins dos anos 40, reunidos em torno da revista Mensagem , António Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, para ficar com apenas três nomes, vão formar a famosa “Geração dos Novos Intelectuais”, que, elegendo como palavra de ordem a frase “Vamos descobrir Angola”, procura lançar uma nova concepção de poesia. A expressão “Novos Intelectuais” alude a um grupo anterior que sacudiu Luanda em fins do século XIX com propostas que, embora menos radicais, foram objeto de repúdio e perseguição por parte do O PASSADO PRESENTE NA LITERATURA AFRICANA Rita Chaves Universidade de São Paulo