Revista do GELNE GELNE GELNE GELNE GELNE Vol. 2 N o . 2 2000 1 Abstract This paper aims to explore the concept of discoursive memory and its articulation to the theme LABOR. Concerning to this theme, it will be evaluate in wich way some therms, from one discourse formation to anoher, modify the relationchip with ideological formation causing social, historical and ideological changes to language. Palavras-chave: discurso; memória; história; trabalhismo. Os estudos relacionados à Análise do Discurso atribuem grande importância à análise de como a His- tória se faz materialmente presente, enquanto memó- ria, no discurso. A inscrição da historicidade na lin- guagem dá-se por meio de processos discursivos que perpetuam e cristalizam a memória de uma época. Esses processos estão na base das relações interdiscursivas que constituem os discursos. A análi- se dos seus efeitos permite a leitura da inter-relação entre textos e a leitura da História que se inscreve nes- ses textos. Para exemplificar, analisemos um desses processos: a possibilidade de mudança de sentido de uma palavra ao passar de uma formação discursiva para outra, uma vez que modifica-se a relação com a formação ideológica. Examinemos termos relaciona- dos à idéia de trabalho. A palavra trabalho tem sua origem no latim: Tripalium: instrumento de tortura composto de três paus. Da idéia de sofrer, passou-se à de esforçar-se, lutar 1 . Opus, eris é no latim a designação dada para “trabalho de uma máquina”, “matéria a que dedica- mos o nosso esforço”, ou ainda “maneira como uma obra se executa”. Operarius é uma classe, “aquele que tem uma arte ou ofício”. 2 VANICE M. O. SARGENTINI Universidade Federal de São Carlos A MEMÓRIA DISCURSIVA DO TEMA TRABALHO Proletário, do latim proletariu, é “o cidadão da última classe e isento de impostos”; “indivíduo pobre”. O dicionário Aurélio 3 indica o termo como “homem de nível de vida relativamente baixo, e cujo sustento depende da remuneração recebida pelo tra- balho que exerce em ofício ou profissão manual ou mecânica”. Solicita que confrontemos com campo- nês, operário e trabalhador. A interdiscursividade constitui a língua colo- cando-a em funcionamento. Cada um dos termos que abordamos guardam traços de sua origem etimoló- gica. Mas, na verdade, ao interpretarmos ou utilizar- mos essas palavras não é a memória etimológica que resgatamos, e sim a memória discursiva (Maingueneau, 1993:115) que nos permite recuperar as relações enunciativas e históricas que vêm à superfície pelo funcionamento da língua. Assim, consideramos que são os lugares em que a palavra esteve presente, ou seja as formações discursivas e ideológicas que a cercam, que determinam a sua relação de valor se- mântico com outras palavras em um determinado momento. Os termos trabalhador, operário e proletário oferecem-nos um bom exemplo de como o valor se- mântico dessas palavras acentua-se conforme a for- mação discursiva e ideológica na qual se inserem. O fim do trabalho escravo, a conseqüente vin- da do imigrante, a industrialização, são os fatores que inserem no Brasil o operário, o trabalhador. Os dois termos estão introduzidos na formação discursiva do início do século que ideologicamente prega o ideal libertário anarquista. O operário ou trabalhador iden- tifica-se, nesse momento, com o imigrante oprimido que é sempre incitado a revoltar-se contra a situação a que está submetido. Veja dois exemplos. O primei- ro foi extraído do romance Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto; no fragmento o narrador apresenta as classes sociais do início do século. 1 Trabalhar- [Do lat. vulg.*tripaliare, ‘martirizar com o tripaliu’ (instrumento de tortura), atr. de uma f.*trebalhar]. In: FERREIRA, A.B.H Novo Dicionário Aurélio, RJ. Nova Fronteira. 2 Informações extraídas do Dicionário Portugûes Latino de Francisco Torrinha 3 FERREIRA, A.B.H.Novo Dicionário Aurélio. R.J, Nova Fronteira.