Os turcos e a Europa André Barrinha 175 N uma entrevista ao jornal Le Monde a 8 de Novembro de 2003, o então presidente da Convenção Europeia, Valé- rie Giscard d’Estaing, afirmava que a Tur- quia nunca poderia vir a fazer parte da União Europeia (UE). Segundo ele, são vários os argumentos que sustentam tal ideia: a capital da Turquia não é na Europa; 95 por cento da população turca vive fora do continente europeu; a Tur- quia, a entrar, tornar-se-ia o país mais pobre e mais numeroso da União; e, por último, é um país com uma cultura e um modo de vida diferentes dos dos actuais estados-membros da UE. Em suma, para o ex-Presidente francês, a adesão da Turquia significaria o fim do processo de constru- ção europeia. O interesse destas afirmações reside não só na importância da pessoa que as profere, mas também no facto de conden- sarem os principais argumentos que rejei- tam a entrada da Turquia para a UE – o argumento económico-social, o geográ- fico e o cultural. Uma Turquia demasiado pobre e com demasiada população, uma Turquia que no continente europeu tem apenas uma pequena porção do seu terri- tório; uma Turquia com outra religião e outros hábitos culturais. Em Turquia: Metamorfoses de Identidade, José Pedro Teixeira Fernandes centra-se princi- palmente no terceiro argumento deste debate: o argumento cultural. Saber qual a possibilidade e os limites da «integração de culturas claramente diferenciadas, numa identidade europeia que se pretende (minimamente) harmoniosa e consis- tente» (p. 25) é o objectivo principal do seu estudo. O autor parte, portanto, da hipó- tese de que existe uma consistente e harmoniosa identidade europeia e, sobre- tudo, que esta é fundamental para o sucesso do processo de integração. No fundo, como que salienta a existência de um oculto critério de Copenhaga, que não é somente político, económico ou «comu- nitário», mas também religioso-cultural. TURQUIA: ENTRE O SECULARISMO E A RELIGIÃO Nacionalismo e Islão. São estes os dois conceitos, cuja aplicação e ligação entre si, no caso de estudo da Turquia, mais preo- cupam o autor. O nacionalismo kemalista, base da criação do Estado turco, foi cons- RECENSÃO Os turcos e a Europa André Barrinha JOSÉ PEDRO TEIXEIRA FERNANDES Turquia: Metamorfoses de Identidade Lisboa, ICS, 2005, 196 páginas