F. LAMEIRA; V. SERRÃO O Retábulo Protobarroco 55 O retábulo protobarroco em Portugal (1619-1668) Francisco Lameira Universidade do Algarve Vítor Serrão Faculdade de Letras de Lisboa Introdução O presente texto constitui um ensaio de abordagem de conjunto sobre a arte da retabulística produzida em Portugal (continental e insular) durante o período compreendido entre 1619 e 1668, datas estas escolhidas como marcas significativas dado que correspondem aos primeiros exemplares de que se tem conhecimento que marcaram na cultura artística nacional o princípio e o fim do ciclo aqui designado por Retábulo Proto-barroco 1 . Estas balizas cronológicas que aqui se desenham correspondem a um período de meio século em que a arte dos retábulos, longe de perenizar soluções retardatárias como até agora se pensava, assumiram muito pelo contrário um figurino de actualização de modelos e de soluções. Apesar de a situação socio-política nacional não ser favorável a um surto artístico com as características que Portugal conhecera no século precedente, por coincidir com a fase final da União Ibérica e com os anos de guerra do Portugal Restaurado, a retabulística portuguesa assuriu, mesmo assim, um formulário absolutamente original e, na medida do possível, alinhado com a modernidade do Barroco internacional. E se é evidente que (como sucede em todas as épocas históricas) existem exemplares de retábulos protobarrocos (e mesmo, ainda, maneiristas) que continuaram a ser executados após a última das datas indicadas (1668), tal constitui apenas o testemunho retardatário, e já conservador em relação ao Barroco pleno, de soluções inovadoras que pesaram fundo no imaginário dos nossos artistas e no gosto do nosso mercado artístico de Seiscentos. Convém anotar que, efectivamente, esta fase do retábulo português nunca foi devidamente valorizada pelos estudiosos, particularmente pelo grande historiador de arte norte-americano Robert C. Smith 2 , que considerava mesmo o período em questão como «uma época pouco decisiva, inferior em capacidade criadora aos períodos que a precederam e seguiram, quando os entalhadores se contentaram em 1 A noção de Retábulo Proto-Barroco nacional foi definida pela primeira vez por um dos autores (F.L.) e mereceu desenvolvimento na comunicação de Francisco Lameira e Vitor Serrão «O retábulo proto-barroco da Capela do antigo Paço Real de Salvaterra de Magos (c. 1666) e os seus autores», Actas do II Congresso Internacional do Barroco, Porto, 2001 (no prelo), bem como no texto (dos mesmos) «O mestre ensamblador João Correia (1614- 1673) e a talha proto-barroca no Brasil», Actas do V Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte, Faro, 2002, pp. 347-355. Ai se define tipologicamente o conceito através da caracterização da obra de dois dos melhores representantes, o escultor e ensamblador régio António Vaz de Castro e o entalhador jesuítico João Correia, este último activo no Brasil. 2 Robert C. Smith, A Talha em Portugal, Livros Horizonte, Lisboa, 1962, p. 49. CORE Metadata, citation and similar papers at core.ac.uk Provided by Sapientia