PAPIRO HARRIS 500 BM 10060 (XVIII DINASTIA EGÍPCIA): POTENCIAIS CONTRIBUIÇÕES AOS ESTUDOS SOBRE O TEMA DO ATEÍSMO NO MUNDO ANTIGO NÃO GRECO-LATINO Jônatas Ferreira de Lima Souza (UFRJ-PG) 1 Resumo: O trabalho com o tema do ateísmo no âmbito da História Antiga está em crescente desenvolvimento nessas duas primeiras décadas do século XXI. A maioria desses trabalhos, publicados em monografias, artigos e capítulos de livros, se debruça sobre o contexto grego e romano. Esse interesse ocorre principalmente porque a palavra “ateu” chega às línguas modernas através da grega “átheos” (ἄθεος) e da latina atheos. Com isso, é possível verificar a relação desses povos com a palavra e suas implicações sociais e políticas em contexto. Contudo, este artigo traz o tema para fora do mundo grego e romano. Esse trabalho foi realizado em nossa dissertação defendida em 2019, junto ao PPG em Letras Clássicas da UFRJ. Para esta atividade traremos o Papiro Harris 500 do British Museum nº EA10060. O Papiro Harris 500 comporta uma coletânea de textos egípcios em hierático da 18ª Dinastia (séculos XVI-XIII A.E.C.) dos quais daremos destaque ao chamado “Harpist’s Song” (VI, 2 – VII, 3), cujo estilo remete ao Reino Médio e ao rei Intef (ou Antef), século XXII A.E.C., na 11ª Dinastia. Para extrair desse recorte textual potenciais contribuições ao estudo do tema do Ateísmo, recorremos à História dos Conceitos, de Koselleck, e aos estudos de etimologia e onomasiologia a partir de léxico especializado em grego, latim e hieróglifo. Assim, apresentaremos as soluções encontradas que tornam esse texto em uma potencial documentação literária capaz de contribuir para o estudo geral do ateísmo na Antiguidade. Palavras-Chaves: Ateísmo. Antiguidade. Papiro Harris 500. Harpist’s Song. INTRODUÇÃO O ateísmo é um fenômeno identitário que está crescendo principalmente nos espaços nacionais de constituição democrática. Desse crescimento surge a sua oposição. Desde suas primeiras expressões de identificação voluntária com o termo, no século XVIII, ateus e ateias encontram dificuldades para expressar seus pontos de vista com liberdade. É particularmente nas sociedades laicas e democráticas que, não só ateus, mas igualmente as atividades científicas, encontram espaço para se desenvolverem com menos repressão ou rejeição cultural-religiosa, uma vez que seus cidadãos são mais seculares (não necessariamente ateístas ou não religiosos). O ateísmo como tema de estudos não é só uma preocupação recente, como reflexo dessas duas primeiras décadas do século XXI. Com menos intensidade, ele também correu por 1 Historiador, formado em bacharelado e licenciatura em História pela UFRN. Mestre e Doutorando (bolsista Capes), segundo ano, em Letras Clássicas na Linha de Estudos Interdisciplinares do PPGLC da UFRJ, sob orientação do prof. Dr. Pedro Ribeiro Martins. E-mail de contato: jonatasferreira@letras.ufrj.br