LISPECTOR, Clarice. Todas as cartas. Prefácio e notas de Teresa Montero; posfácio de Pedro Karp Vasquez; pesquisa e transcrição de Larissa Vaz. Rio de Janeiro: Rocco, 2020, 859 pp. Cartas de Clarice Lispector: uma conversa infinita Rejane Pivetta 1 O ano de 2020 movimentou a cena literária brasileira por ocasião do centenário de Clarice Lispector. As muitas comemorações, entre eventos, exposições, debates, filmes e publicações sobre a escritora, deram-se sob o regime de confinamento, devido à pandemia de coronavírus que parou o mundo. Essa circunstância não deixa de afetar de maneira peculiar a leitura de uma obra tão marcada pela meditação sobre a matéria viva da existência, na forma de uma escrita pulsante, que grita e, simultaneamente, devolve o silêncio das coisas insondáveis, avessas a explicações. Neste momento trágico da nossa história, Clarice Lispector continua mais contemporânea do que nunca, endereçando-nos mensagens potentes para iluminar as zonas obscuras do nosso presente. Assim é que nos tornamos destinatários de Todas as cartas, um conjunto de 284 correspondências (todas as conhecidas até este momento), escritas por Clarice Lispector entre maio de 1940 e novembro de 1977. De alguma forma, ocupamos o lugar de interlocutores de mensagens cuja intimidade não está na revelação de fatos da vida privada, mas no tom despojado e afetivo com que a escritora convida seus leitores a participar de uma “conversa infinita”, na busca incessante por um entendimento que sempre escapa. Todas as cartas, sob a coordenação de Pedro Karp Vasquez, que assina também o Posfácio da edição, vem na esteira do projeto editorial de sistematizar a produção de 1 Doutora em Teoria da Literatura, professora e pesquisadora da graduação e PPG Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS.