OS TRABALHOS DE HÉRACLES: O CARÁTER E A MORALIDADE 6 J. A Colen Centro de Ética Política e Sociedade Universidade do Minho orcid.org/0000-0003-0270-7416 Sócrates, quando abandonou a especulação sobre o cosmos, dedicou-se justamente à questão que considerou fundamental “o que é a coisa certa (ou justa) a fazer?”. A filosofia e a poesia mantinham há muito tempo uma querela sobre qual exprime melhor o homem. Um poeta e crítico inglês do século XIX que trabalhou muitos anos como inspetor escolar, Matthew Arnold, é geralmente considerado o género de escritor que instrui o leitor sobre questões morais e sociais, recorreu à poesia. Tinha um “furor pedagógico” que o levava a sair do seu caminho para ensinar aos outros o que se devia fazer. Arnold compôs um longo poema chamado Moralidade, que fala do fogo que o move: Não podemos acender quando quisermos o fogo que reside no coração; o espírito sopra e fica quieto, no mistério, a nossa alma habita. É com as “mãos doloridas e pés sangrando” que fazemos as coisas (“pedra sobre pedra”) e o homem olha para trás e vê o que fez: Então, quando as nuvens estão fora da alma, Quando se aquece nos olhos da Natureza, Pergunte como (a natureza) vê o teu autocontrolo, Tua luta, – a tarefa da moralidade – Natureza, cujo ar livre, leve e alegre, Muitas vezes te deixou, em tua escuridão, desespero. E ela, cuja censura tu temes. 6 “Os Trabalhos de Héracles: O Caráter e a Moralidade”. In Gonçalo Silva, António Morais e Miguel Oliveira, ed. Da Inquietação Filosófica. Conversas sobre Questões de Vida ou de Morte. Carcavelos: Editorial Aster, 2022, pp. 45-57. ISBN 978-989-8586-20-9