129 O dilema da Social-Democracia (3) Rosa Luxemburgo e Lenin: concepção de partido e reformismo * Antonio Ozaí da Silva ** Do ponto de vista marxista era inaceitável a teoria oportunista de Bernstein. No entanto, é preciso analisar porque esta prática impõe-se ao partido. Sem a avaliação dos efeitos da estratégia eleitoral, da composição social do partido e do peso do fator burocrático em seu interior, é difícil compreender este processo. Durante o período em que o SPD esteve na ilegalidade suas condições de existência afetaram sua atuação e estrutura. O fator parlamentar progressivamente passou a ter um peso determinante. Sem dúvida, o crescimento eleitoral, sua necessária amplitude e o caráter de massas foram fatores positivos que o transformaram numa força política respeitável na sociedade alemã da época. Mas, contraditoriamente, seu crescimento eleitoral foi precisamente o que mais contribuiu para a sua burocratização e a consolidação do reformismo. Lenin avaliava que alguns vícios e comportamentos próprios dos intelectuais eram fatores perniciosos ao partido proletário e originários do desvio oportunista. Na sua análise, o que caracteriza os intelectuais, enquanto camada social particular, é o individualismo, a inaptidão à disciplina e à organização. Esta particularidade explicaria a sua fraqueza e instabilidade e estaria intimamente ligada às condições materiais de suas vidas, aos seus interesses, muito próximos das condições de existência da pequena-burguesia. 1 Lenin enfrentou o revisionismo com vigor e 1 Sobre este ponto, Lenin faz uma extensa citação de Kautsky: “O proletário luta com a maior abnegação como uma parcela da massa anônima, sem pretender vantagens pessoais, glória pessoal; ele cumpre o seu dever em qualquer cargo onde seja colocado, submetendo-se voluntariamente à disciplina (...) O que sucede com o intelectual é muito diferente. Ele não luta empregando, de um modo ou de outro, a força, mas servindo-se de argumentos. As suas armas são os seus conhecimentos pessoais, as suas capacidades pessoais, as convicções pessoais. Só se pode fazer valer pelas suas qualidades pessoais. A inteira liberdade de manifestar a sua personalidade apresenta-se-lhe pois como a primeira condição de êxito no seu trabalho. Só muito dificilmente submete-se a um todo, como parte auxiliar desse todo, e submete-se-lhe por necessidade e não por inclinação pessoal. A necessidade de uma disciplina, reconhece-a apenas para a massa e não para os espíritos de elite. Ele próprio, é evidente, considera-se entre os espíritos de elite...” Apud in LENIN, 1981, p. 303-304.