Passos em volta noventa e nove Sinais de cena 13. 2010 Rui Pina Coelho O realismo está morto. Viva o realismo! O realismo está morto. Viva o realismo! Rui Pina Coelho < Blackbird, de David Harrower, enc. Tiago Guedes, TNDMII, 2010 (Isabel Abreu e Miguel Guilherme), fot. Margarida Dias. Há muito que o realismo vive a prazo e com uma certidão de óbito passada. Em alguns circuitos teatrais ganhou até contornos francamente pejorativos, frequentemente conotado com um certo conservadorismo estético e associado a recursos discursivos menos consonantes com a vertigem e a liberdade pós-moderna ou pós-dramática. Porém, a história do teatro, das últimas décadas do século XIX em diante, deve algumas das suas mais assinaláveis datas ao realismo e à representação realista. Fundado sobre a ideia de que a arte deve erguer um espelho para a natureza e exigindo um código de representação mimética implicada na ideia dramática aristotélica, ainda hoje, na actualidade, o tratamento realista motiva difusas criações pertinentes e actuantes. Atravessando todo o século XX, o realismo pluralizou-se Título: Blackbird (2005). Autor: David Harrower. Tradução e encenação: Tiago Guedes. Cenário e figurinos: Joana Rosa. Desenho de luz: Nuno Meira. Sonoplastia: Rui Dâmaso. Interpretação: Isabel Abreu, Miguel Guilherme e Constança Rosado / Filipa Rebelo / Margarida Lopes. Produção: Take It Easy / TNDMII. Local e data de estreia: Teatro Nacional D. Maria II, 14 de Janeiro de 2010. Título: Num dia igual aos outros (On an Average Day, 2002). Autor: John Kolvenbach. Tradução: Gonçalo Waddington, Marco Martins, Miguel Castro Caldas e Nuno Lopes. Encenação: Marco Martins. Cenografia: Artur Pinheiro. Figurinos: Isabel Carmona. Desenho de luz: Nuno Meira. Interpretação: Gonçalo Waddington e Nuno Lopes. Produção: TNDMII. Local e data de estreia: Teatro Nacional D. Maria II, 11 de Março de 2010. e foi sendo adjectivado de maneira múltipla com vista a melhor poder dar conta das mutações que o mundo e a cena foram sofrendo. Realismo psicológico, realismo mágico, realismo filosófico, realismo abstracto, realismo social, realismo socialista, realismo crítico, realismo épico, hiper-realismo, são apenas algumas das muitas designações que têm ajudado a descrever o amplo campo de acção de uma estética de representação do real. A somar a estas variáveis, há que acrescentar a uma breve cartografia do realismo a sua relação com o naturalismo, termo gémeo e muitas vezes seu sinónimo. Visando distinguir estes sempre intrincados termos – naturalismo e realismo –, Paul Allain e Jen Harvie, em The Routledge Companion to Theatre and Performance, acrescentam a uma longa discussão: