MAD 42 (2020): 25–32 DOI: 10.5354/0719-0527.2020.59296 © CC BY-NC 3.0 CL Anarquia de base: interação, relação e antiessencialismo na teoria dos sistemas sociais Base anarchy: interaction, relationship, and anti-essentialism in social systems theory Fabrício Neves Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília, Brasil RESUMO: Neste trabalho, procuro aproximar a teoria dos sistemas sociais das discussões mais recentes para uma sociologia relacional, desencadeadas a partir do manifesto de Mustafa Emirbayer. Busco mostrar como a ideia de uma ‘sociologia relacional’ equivale a conceitos emergidos no seio do intento metateórico de Niklas Luhmann de uma teoria de três dimensões de formação sistêmica, a saber: sistemas sociais, interações e organizações. Darei atenção à interação e à dimensão relacional que lhe são constituintes. Busco evidenciar como o ímpeto antiessencialista da sociologia relacional ali se apresenta bem articulado por meio das ideias de sistema, fluxo, comunicação e copresença. Finalmente, discutirei como a diferenciação interação/sociedade pode contribuir para a superação de dilemas teóricos da sociologia relacional como liberdade e determinação, mudança e permanência. ABSTRACT: In this paper, I seek to bring the theory of social systems closer to the most recent discussions for a relational sociology, triggered by the manifesto of Mustafa Emirbayer. I seek to show how the idea of a ‘relational sociology’ is equivalent to concepts emerging within Niklas Luhmann’s meta-theoretical intent of a three-dimensional theory of systemic formation, namely: social systems, interactions, and organizations. I will pay attention to the interaction and the relational dimension that constitute it. I will highlight how the anti-essentialist impetus of relational sociology is well articulated there through the ideas of system, flow, communication, and co-presence. Finally, I will discuss how differentiation of interaction/society can contribute to overcoming the theoretical dilemmas of relational sociology such as freedom and determination, change and permanence. PALAVRAS-CHAVE: teoria dos sistemas sociais; sociologia relacional; antiessencialismo; interação; comunicação KEYWORDS: social systems theory; relational sociology; antiessentialism; interaction; communication INTRODUÇÃO Como vem sendo frequentemente assinalado pelo mainstream da teoria sociológica contemporânea, a ex- pectativa totalizante de compreensão societária en- trou em refluxo desde o início da década de 1990. Se a busca sistemática de um paradigma ou modelo para a análise social tem seu pontapé inicial na teoria dos sistemas na década de 1930, empreendimento que deve ser creditado a Talcott Parsons, foi com esta mesma expectativa teórica que tal busca se encerrou, ao menos por enquanto. As macro- e meta- narrati- vas teriam terminado tão logo os avanços pós-mo- dernos/estruturalistas tomaram o centro da teoriza- ção sociológica, reivindicando mais atenção aos fenô- menos circunscritos, a temas bem delimitados, a con- ceitos que pudessem ser imediatamente rebaixados à condição de categorias analíticas para processos con- cretos. Neste ensaio, argumento que tal postura, me- nos ambiciosa, não deveria ser compreendida como uma contraposição às iniciativas totalizantes da teori- zação sociológica. Antes, elas representam exata- mente as consequências daquele processo, assu- mindo, vez ou outra, formas teóricas emergidas no seio da teorização totalizante, mas rebaixando-as a operadores empíricos de pesquisa, circunscrevendo- as a temas concretos da agenda social de fim e início de século. Para deixar mais claro este argumento, busco mostrar como a ideia de uma ‘sociologia rela- cional’ equivale a formas teóricas emergidas no seio do intento de Niklas Luhmann de uma teoria socio- lógica que desse conta de três dimensões de forma- ção sistêmica, a saber: sistemas sociais, interações e organizações. Por motivos de espaço, darei atenção à interação e à dimensão relacional que a constituem. Tentarei mostrar como o ímpeto antiessencialista da sociologia relacional ali se apresenta bem articulado por meio da ideia de comunicação e copresença. Para este intento, encadeio as partes deste en- saio da seguinte forma: primeiro, farei uma digressão pela ideia de sociologia relacional, começando pelo