30 Ci.Inf., Brasília, DF, v.52 n.1, p.30-37, jan./abr. 2023 O documento como contexto: repensando a materialidade de um conteúdo e seus impactos na organização do conhecimento José Augusto Chaves Guimarães Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo Professor Titular do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Marília, São Paulo, Brasil. E-mail: chaves.guimaraes@unesp.br Lattes: http://lattes.cnpq.br/6380929054652063 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0310-2331 Data de submissão: 03/10/2022. Data de aprovação: 27/02/2023. Data de publicação: 22/09/2023 RESUMO A organização, a recuperação, a preservação e a disponibilização da memória da sociedade, em suas mais diversas facetas, sempre permearam os saberes e os fazeres da humanidade, que buscou construir, ao longo do tempo, artefatos que pudessem ir além das limitações da memória humana, de modo a abrigar um cada vez maior volume de dados, informações e conhecimentos. Contudo, é, notadamente, a partir do século XIX, com a explosão informacional, que a preocupação com a organização do conhecimento registrado em documentos e institucionalmente preservados se intensifica. A vista disso, discute-se o caráter indicial - ou testemunhal - do documento, não apenas relativamente a seu conteúdo, mas, e, principalmente, como fruto de um contexto de produção, aspecto que impactará sua organização. Nesse sentido, analisam- se as novas configurações do conteúdo documental – cerne da organização do conhecimento – que vai além do assunto para agregar elementos relativos à sua proveniência, organicidade, autoria, bem como sua contextualização espaço-temporal. Palavras-chave: documento; organização do conhecimento. INTRODUÇÃO Um aspecto que sempre permeou os saberes e os fazeres da humanidade reside na organização, na recuperação, na preservação e na disponibilização da memória da sociedade em suas mais diversas facetas. Para tanto, essa sociedade buscou construir, ao longo do tempo, artefatos que pudessem ir além das limitações da memória humana, de modo a abrigar um cada vez maior volume de dados, de informações e de conhecimentos. Assim, na Antiguidade, as inscrições rupestres nas cavernas e as placas de argila descritivas de papiros e pergaminhos em palácios mesopotâmicos, bem como o sistema de classificação de Calímaco, em Alexandria, foram importantes marcos dessa trajetória de registro e representação, que, na Idade Média, evidenciou-se nas glosas e nas marcações marginais dos monges copistas, por exemplo. Tal aspecto, por sua vez, foi amplamente potenciado com a invenção dos tipos móveis, por Gutenberg, o que possibilitou a multiplicação dos registros do conhecimento e, por conseguinte, sua mais ampla divulgação.