DOI: 10.4025/cienccuidsaude.v13i1.19436 Cienc Cuid Saude 2014 Jan/Mar; 13(1):20-26 _______________ * Enfermeira, Dra. Professora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó, em Chapecó (SC). E-mail: lferraz@unochapeco.edu.br ** Socióloga, Dra. Professora da Universidade Federal de São Paulo (SP). E-mail: maraandrea@unifesp.br *** Bióloga, Dra. Professora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó, em Chapecó (SC). E-mail: assunta@unochapeco.edu.br A VISÃO LÚDICA E SOLIDÁRIA DE ADOLESCENTES CATADORES DE MATERIAL RECICLÁVEL Lucimare Ferraz* Mara Helena de Andrea Gomes** Maria Assunta Busato*** RESUMO O objetivo deste trabalho é apresentar os motivos que levam crianças e adolescentes a trabalharem na coleta de materiais recicláveis. Trata-se de um estudo qualitativo, com o delineamento de um estudo descritivo. Participaram da pesquisa duas crianças e vinte adolescentes catadores de materiais recicláveis. A coleta de dados ocorreu a partir de entrevistas semiestruturadas e grupo focal, nos meses de janeiro e fevereiro de 2009. O tratamento dos dados foi feito por meio de análise de conteúdo, através da técnica de análise temática, que consiste na identificação dos núcleos de sentido a partir da presença ou da frequência do tema que compõe o texto, desde que tenha uma relação com os objetivos ou questões da pesquisa. Na análise dos resultados identificamos os seguintes motivos pelos quais crianças e adolescentes trabalham na coleta de material reciclável, a saber: para ajudar os pais no trabalho; para gerar recursos financeiros à família; e para sair de casa e se entreter. Ao final concluímos que não conseguimos descolar a situação de trabalho com a de entretenimento entre essas crianças. Trabalho e entretenimento, a casa e a rua, são polarizações inaplicáveis a esse grupo, constituem-se mutuamente e conformam suas vidas. Palavras-chave: Trabalho de menores. Motivação. Catadores. INTRODUÇÃO O trabalho infantil é uma realidade assustadora pelas dimensões que apresenta e pela magnitude de sua ocorrência. No Brasil são 4,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos de idade que trabalham em atividades econômicas, representando 10,2% da população nesta faixa de idade, segundo o retrato atual realizado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2008. Entre as atividades desenvolvidas, 35,5% trabalham na agricultura e 51,6% são empregados ou trabalhadores domésticos. Suas circunstâncias obedecem aos critérios econômico-regionais, a região Nordeste tem o maior índice (com 12,3%), seguida pela região Sul (11,9%); enquanto a região Sudeste possui o menor percentual (7,9%). Dentre os meninos de 5 a 17 anos de idade, 13,1% trabalham; e as meninas constituem 7,1%, fato percebido em todas as regiões do País (1) . A pobreza é uma explicação inegável para o trabalho infantil, condição que obriga os pais tanto a utilizar os filhos como mão de obra doméstica quanto a oferecê-los no mercado de trabalho para aumentar a renda familiar. Considerando o aspecto social, observa-se que crianças e adolescentes estão trabalhando para garantir uma renda básica para a sobrevivência (2) . Essa situação acaba condicionando uma causa da pobreza futura, uma vez que a criança que trabalha apresentará um nível de escolaridade final mais baixo do que o alcançado por aquelas que não trabalham. É uma situação que tende a se reproduzir enquanto permanecer uma alternativa a certos segmentos de trabalhadores para se manter na esfera do trabalho, ainda que em condição precária, como uma alternativa de sobrevivência a um contingente de trabalhadores não especializados e/ou fora do mercado de trabalho. Quanto ao trabalho precário de catação de lixo, além de ser uma atividade realizada sob as piores condições de trabalho, é a própria precarização condicionada à utilização da mão de obra infantil (3) . É certo que a natureza do trabalho infantil está enraizada nas situações de pobreza, de desigualdade e de exclusão social, mas seus efeitos propagam-se por todas as dimensões da vida, pois o trabalho precoce repercute negativamente na saúde dos infantojuvenis (4) .