Acta Pediatr. Port., 1995; N.- 6; Vol. 26: 369-71 Metodologia de Diagnóstico e Controlo de Evolução da Hepatite Aguda na Criança MARGARIDA MEDINA*, JORGE AMIL DIAS*, A. MENDES ANTÓNIO, A. NOGUEIRA BRANDÃO, JOSÉ CABRAL, M. HERCULANO ROCHA, J. LOURENÇO GOMES, ISABEL GONÇALVES, ANA I. LOPES, INÊS PÓ, P. MAGALHÃES RAMALHO, F. CARDOSO RODRIGUES Relatório do Grupo de Trabalho da Secção de Gastrenterologia e Nutrição Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria Introdução A hepatite na criança é considerada habitualmente como uma doença benigna provocada pelo vírus A. Se bem que esta afirmação seja verdadeira, a prevalência de crianças infectadas pelo vírus B não deve ser ignorada. Em 1983 Lecour, no único estudo epidemiológico de âmbito nacional, identificou 7.6% e 12.6% de crianças com anticorpo anti-HBs dos 0-4 e dos 5-9 anos respectivamente (1). Esses dados não devem deixar os médi- cos responsáveis pela Saúde Infantil indiferentes, até pela ansie- dade que a opinião pública tem manifestado face à hepatite B, As afirmações anteriores não devem, contudo, fazer esque- cer que a maioria dos episódios de hepatite aguda são de tipo A. Perante a criança com hepatite aguda os médicos são habi- tualmente confrontados com a pressão dos familiares para que se estabeleça um diagnóstico etiológico rigoroso. Também as preo- cupações epidemiológicas e a identificação dos portadores cró- nicos que exijam medidas médicas, nomeadamente notificação dos casos diagnosticados e vacinação dos familiares, devem ser consideradas. No outro «prato da balança» há que ponderar a racionalização dos custos decorrentes da execução sistemática de todos os possíveis marcadores séricos de hepatite. Torna-se, pois, necessário estabelecer um plano de investi- gação diagnóstica que evite despesas excessivas e dê resposta à necessidade de estudar e vigiar os doentes com hepatite aguda. Com esse objectivo, a Secção de Gastroenterologia e Nutri- ção Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria elaborou um protocolo de investigação das crianças com hepatite aguda. Como qualquer recomendação genérica, esta norma deve ser adaptada à situação específica de cada doente, embora a divisão da investigação diagnóstica em fases abranja a grande maioria das situações clínicas. Em princípio, as fases iniciais de diagnóstico devem ser executadas na consulta de ambulatório que a criança habitual- mente frequenta. Caberá ao médico responsável pelo doente decidir a altura em que deve compartilhar a investigação com os centros mais diferenciados. Naturalmente que os doentes que * Relatores. Entregue para publicação em 95/03/20. Aceite para publicação em 95/07/25. requerem biópsia hepática por evolução agressiva, com altera- ções da bioquímica hepática durante mais de 6 meses, ou com provável etiologia diversa (hepatite auto-imune, hepatite C) deverão ser enviados também aos centros com competência em gastroenterologia pediátrica. Metodologia de diagnóstico Perante uma criança que adoece com sintomas e sinais su- gestivos de hepatite aguda, após colheita da história clínica e exame objectivo adequados, deve determinar-se a alanina- aminotransferase (ALT), fundamental para a confirmação da doença, e pesquisar-se o antigénio de superfície (AgHBs), que será necessariamente positivo se a hepatite for provocada por vírus B. É importante salientar que este estudo deverá ser alargado quando a gravidade da situação clínica o aconselhe. O tempo de protrombina está alongado em caso de necrose hepatocitária grave ou descompensação de doença hepática subjacente. A criança deve manter-se em vigilância clínica durante 6 semanas. As recomendações a fazer durante este período serão as seguintes: Dieta ligeira conforme a tolerância da criança. Retorno à escola logo que a criança para tal se sinta capaz. Actividade física normal. Abstenção de qualquer terapêutica medicamentosa. Se a determinação inicial do AgHBs foi negativa (Fig. 1) e a evolução clínica favorável, recomenda-se a repetição do doseamento da ALT pelas 6 semanas: no caso de a ALT norma- lizar, considerar-se-á que se tratou de muito provável hepatite A com evolução clínica e analítica no período habitual. Se a ALT se mantiver elevada será importante dosear a IgM para o vírus A, identificando assim uma infecção por este vírus com evolução mais arrastada que o habitual. A realização do proteinograma é aconselhável nesta fase já que pode alertar para a possibilidade de se tratar de hepatite auto-imune, pela elevação da fracção 'y. Na criança esta doença apresenta-se frequentemente sob a forma de hepatite aguda.