C Das águas antigas e dos mapas reiventados em O livro dos rios, de José Luandino Vieira RITA CHAVES Universidade de São Paulo om a promessa de uma trilogia – De rios velhos e guerrilheiros –, José Luandino Vieira rompe o seu prolongado silêncio, apresentando-nos O livro dos rios, uma narrativa desconcertante que, sem dúvida, recoloca-nos em contato com alguns fenômenos marcantes na trajetória da literatura angolana. Desde as primeiras linhas confrontamo-nos com a impressionante língua literária que, sobretudo a partir de Luuanda, exprimia uma forma de estar no mundo em muito diversa daquela que os cantos do colonialismo apregoavam como co- mum ao Império (tão empenhado em se eternizar). Entre as várias questões que O livro dos rios nos põe, destaca-se a indaga- ção sobre a validade de se recolocar em cena a figura do guerrilheiro, confe- rindo-lhe o papel de protagonista e, mais ainda, situando-o no centro da fabulação, mediada pelo discurso em primeira pessoa. Insólita, a atitude re- vela coragem, pois atenta contra a diluição das contradições que, tendo mo- tivado a duríssima guerra, continuam a repercutir no cotidiano do país. A noção de utopia, tão marginalizada pelos discursos da hegemonia, insinua-se na busca angustiada que a fala de Kene Vua exprime, fazendo reemergir um passado que selou a mudança sobre a qual é preciso pensar. No domínio da fatura literária, o fenômeno do retorno ao passado reforça-se também na incorporação de Kibiaka, personagem fundamental em Nós, os do Makulusu, outra narrativa de Luandino em que a guerra colonial é motivo medular. Ao retomar a personagem e refundar a atmosfera de tensão tão forte nos anos 1960, o escritor parece advertir-nos de que ainda há muito a conquistar nes- se processo que tem conhecido avanços e recuos. A dedicatória a Langston Hughes é claramente indicativa do lado em que se situa o autor, com evidentes repercussões em seu texto. Entretanto, não