A pesquisa em torno das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: pontos para um balanço Rita Chaves 1 A permanência por um período relativamente longo num país africano traz, mesmo para quem já tem com essas realidades um contato constante, a possibilidade de acumular experiências bastante positivas para a relação com o patrimônio literário aí produzido. A oportunidade de estar em Moçambique por alguns meses e o privilégio de transitar por Angola e África do Sul — porta de entrada e saída mais utilizada nas viagens — vieram me confirmar, em muitas dimensões, a idéia da diversidade do continente. A despeito da coincidência da metrópole colonizadora, não podemos ter dúvida quanto às diferenças que distinguem Angola e Moçambique. O que pode parecer um detalhe torna-se algo relevante na medida em que ataca um dos estereótipos mais negativos na abordagem da África no Brasil. Refiro-me ao problema da homogeneização. Quase sempre o continente nos vem sob a forma de um espaço horizontalizado: ou temos a África tenebrosa das grandes calamidades, ou somos brindados com a África paradisíaca dos folhetos de turismo, ou nos deparamos com a evocação de um contexto pautado pela harmonia, cujos traços parecem sobreviver na visão utópica de segmentos da população brasileira que, marcados pelo 1 Rita de Cássia Natal Chaves é professora assistente-doutora na Universidade de São Paulo e atua na área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Também é pesquisadora associada na Universidade de Lisboa. Atuou como professora visitante na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique. Maio de 2010 - Nº 7