A ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA? Um livro, um filme, uma série e a pluralidade de sentidos e possibilidades da arte narrativa a partir da obra de Umberto Eco 1 Eduardo Cesar Maia 2 Considerada, a princípio, por alguns editores, uma obra extremamente difícil e que estava fadada ao fracasso mercadológico, O nome da Rosa, do semiólogo e historiador italiano Umberto Eco, surpreendeu a todos: milhões de exemplares foram vendidos em todo o mundo e a obra, hoje, encontra-se traduzida em cerca de 20 idiomas. Um êxito editorial avassalador e inesperado, se levarmos em conta justamente a complexidade de um texto permeado por discussões teológicas, filosóficas e por citações em latim sem tradução. O romance é propositalmente aberto a vários níveis de leitura – uma máquina de gerar interpretações, disse Eco –, de acordo com o gosto e a formação de quem o lê. Na superfície, funciona perfeitamente como uma boa história de mistério e investigação completamente acessível a qualquer leitor. Nesse sentido, algumas referências literárias são evidentes, como no sobrenome Baskerville, dado por Eco ao seu protagonista, em alusão ao conto de Arthur Conan Doyle protagonizado pelo talvez mais famoso detetive da história da literatura; e, também, ao caso da proximidade sonora do nome do jovem pupilo e auxiliar Adso (elementar!), o personagem-narrador que rivaliza em importância com o protagonista. É justamente a relevância de Adso no enredo que sugere uma nova possibilidade de leitura, a que aproxima a obra da estrutura de um Bildungsroman, ou romance de formação, gênero literário de larga tradição e grande importância no ocidente, desde pelo menos Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe. Em outra perspectiva, o livro pode ser visto ainda como um ambicioso romance histórico, permeado de detalhes sobre o mundo e a cosmovisão medieval, na qual Eco era, como se sabe, um grande especialista. Seguindo essa mesma linha, para um leitor um pouco mais preparado, O nome da Rosa pode ser analisado inclusive como uma obra 1 Ensaio publicado inicialmente na edição 235 da Revista Continente, em julho de 2020. 2 Crítico cultural, professor do Programa de Pós-Graduação em Letras e professor da graduação em Comunicação Social, ambos da UFPE. Contato: eduardo.ferreirafo@ufpe.br 97