POR QUE EXISTE ALGO EM VEZ DE NADA? De entre todos os problemas metafísicos, há um em particular que costuma ser considerado pelos filósofos, ou pelo menos por alguns deles, como sendo porventura o problema mais difícil de todos, não apenas da metafísica, mas de toda a filosofia: é o problema de saber porquê existe alguma coisa em vez de nada. Afinal, porquê tudo isto? Qual é a causa ou razão de tudo o que existe? Existirá sequer tal coisa, uma causa ou razão única que explique a existência de tudo? Ou será que apenas existem causas e razões explicativas para todas as coisas e seres, fenómenos e acontecimentos, estados e processos, mas não necessariamente uma causa ou razão única que as explique a todas e a todos? Afinal, se o facto de todos os seres humanos terem necessariamente um pai e uma mãe não implica que exista um pai e uma mãe de todos os seres humanos, pois o que é válido para um ser não é necessariamente válido para o conjunto dos seres de que ele faz parte, porque haveria então de ser diferente para a totalidade dos seres ou de tudo o que existe? Talvez o facto de cada coisa ou ser em particular ter obrigatoriamente uma causa ou razão para existir (ou uma série delas) não implique necessariamente que isso também se aplique ao conjunto formado por todas as coisas e seres. Talvez o problema não esteja bem formulado e não passe afinal de um equívoco, resultante de uma mera falácia da composição que nos leva a assumir, sem prova, que o mesmo princípio que se aplica a uma parte se aplica igualmente ao todo de que ela faz parte. Porém, se assim for, como se explica então a existência da totalidade dos seres ou coisas, estados de coisas, acontecimentos e processos a que costumamos chamar Universo? Se tudo o que conhecemos parece ter uma causa ou razão para existir, como é possível que o conjunto de todas as coisas e seres seja uma excepção a essa regra aparentemente universal que rege todas as coisas? Será que tudo tem uma causa, menos o todo formado por todas as coisas e seres? Será que os princípios da causalidade e da razão suficiente se aplicam apenas às partes, mas não ao todo formado por elas? Afinal, se todas as coisas e seres que conhecemos fazem parte do Universo, mesmo que todas elas tenham necessariamente uma causa ou razão para existirem, essas causas e razões são também elas internas ao Universo, fazendo assim parte do mesmo todo que explicam. Assim, as causas de umas coisas são outras coisas, as causas de uns seres são outros seres, as razões de uns fenómenos ou acontecimentos são outros fenómenos ou acontecimentos, o mesmo princípio valendo para leis, processos ou estados de coisas. Porquê então pensar que pode ou deve haver necessariamente uma causa de todas as causas, uma razão de todas as razões que explique a existência da totalidade das coisas, seres, estados, processos, acontecimentos, fenómenos, leis, causas e razões? Por outro lado, se não houver tal coisa, se não existir qualquer causa ou razão suficiente capaz de explicar todas as coisas, todas as causas e todas as razões suficientes de tudo o que existe, inclusive explicando a si própria como causa ou razão suficiente de tudo o que existe, então como se explica a existência de tudo? Porque afinal não estamos a perguntar porque existe alguma coisa ou ser em particular, mas sim porque existe algo ou alguma coisa em geral, seja isso o que for, pessoas e átomos, planetas e galáxias, espaço e tempo, matéria e energia, vida e morte, pensamento e consciência, natureza e leis da natureza. Haverá realmente tal princípio supremo que seja capaz de explicar tudo, de explicar a existência de tudo, explicando ao mesmo tempo a si mesmo como causa ou razão de tudo? E que causa, razão ou princípio metafísico seria ou poderia ser esse, capaz de explicar a existência de tudo, inclusive de si mesmo como causa, razão e princípio de tudo? Deus? O Ser? O Infinito? O Uno? O Absoluto? O Todo? O Nada? O próprio Universo? Que causa, razão